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A Nova Música no Grito Rock São Carlos 2011

Novamente comentando mais um Grito Rock São Carlos, que vem para começar o ano em bom tom. Trazendo, entre outras coisas, bandas interessantíssimas, já em sua quarta edição na cidade, deixa o carnaval para acontecer no fim de março. Mas, de mudanças importantes mesmo se vê surpresas no perfil das bandas que se apresentariam na Estação Cultura.



Explico. Nos primeiros anos o enfoque era em grupos dentro de um apelo rocker bem mais clássico, por assim dizer. Abusava-se dos estilos mais consagrados, bem aceitos pelo público. Chegou-se mesmo a trazer bandas com parco material autoral, já que na verdade no dia-a-dia se fundamentavam em covers. Contudo, nas últimas edições a preocupação com originalidade e novas tendências se fundamentou, culminando agora em 2011. Obviamente, se mudanças para melhor ou pior, isso vai de pessoa para pessoa. O fato é que inegavelmente há novas perspectivas que, a meu ver, são para melhor.

Assim, via-se na programação deste ano canção, experimentalismos, música instrumental (até fugia-se do Rock, olhando bem). Não necessariamente artistas de vanguarda, mas nem por isso deixam de ser grupos originais, procurando uma identidade e sem medo de se deixar influenciar e muito menos de inovar. É claro que existem diversos nomes seguindo rumos semelhantes àqueles desta edição. Contudo, o importante é que não se pode dizer que é uma música que cultua um Rock sem nada a acrescentar, estagnada no que foi criado no passado.

     


Claro, generalizo as bandas que se apresentaram no Grito Rock São Carlos 2011, mas falo de algumas pontualmente, e destas intuo a mudança de postura no festival. Neste ano uma forte linha da programação estava embasada nos novos nomes da canção popular brasileira. E aqui penso em bandas como Trupe Chá de Boldo, Do Amor e mesmo Seychelles. E quando digo que houve uma preocupação em trazer mais experimentalismo e musica instrumental, temos nomes como Aos Maníacos Símeis e Bexigão de Pedra, representando a São Carlos instrumental,  além da Huey e Atmosfera Lunar, pela primeira vez na cidade.

E vamos então postar em um nome do primeiro time, o da canção, que me chama a atenção, apresentando-o aqui: Loungetude46.




E começo dizendo que Loungetude46 não vem de Campinas, conforme nos dizia a divulgação do Grito Rock São Carlos. E isso não é erro sem importância, pois a banda tem muita influência da sua cidade  natal, São Paulo. E, aos desavisados, eles declaram isso justamente no nome, já que a capital paulista fica nos 46º  e Longitude. Entretanto, a influência vai muito além disso: o urbano é tema freqüente nas letras, altamente críticas, e a mistura de tantos ritmos – Samba, Funk, Jazz, Salsa – acaba refletindo a heterogeneidade que é a megalópole. Em suma, Loungetude 46 é uma autêntica filha de São Paulo.

 


E quem vai pensando que isso só se aplica na sonoridade musical está enganado. Há poesia, que se funde à música, com suas letras meio cantadas e meio declamadas. Há performance, presente em tantos momentos do show, como em Galinhas no Outono, com os integrantes encarnando bicos e tudo. E, não se pode deixar de citar, há trabalhos gráficos, com a belíssima página online do grupo e seu segundo álbum, livro magnífico acompanhando o CD que é possível ver abaixo. Aliás, em todo esse encontro de artes não dá pra deixar de lembrar que a banda é paulistana. Também, difícil não encontrar uma relação com uma cidade que tem de tudo.

Teria muito para dizer da banda, do seu instrumental impecável, da voz potente e de belíssimo timbre da vocalista Mariana Degani, da presença de palco, da qualidade das letras. Mas acho que já deu para ter uma idéia, não? Pena foi um público maior ter perdido a oportunidade de chegar a ver uma proposta como essa nos palcos. É o futebol de domingo deixando suas vítimas.


    

Setlist Loungetude46
01.Extra; 02.Brasileira; 03.Café da Tarde; 04.A canção que vai mudar... ; 05.Petróleo; 06.Galinhas no Outono; 07.Filosofia; 08.Lua e Pedro; 09.Eclipse;


Mais fotos do Grito Rock São Carlos 2011 podem ser vistas no nosso Picasa!


Fotos: Danilo Eric e Diogo Martino. Manoela Wright (Loungetude46, primeira foto).


Quizumba Ao Vivo na Macacada

Este é o último bootleg gravado no Festival Macacada no Campus 2 da USP São Carlos. Composto apenas da canção brasileira, de Samba, MPB e tropicalismos, as gravações são um trabalho bastante diferenciado da banda são-carlense Quizumba

No festival, o Quizumba destoava das demais apresentações da noite, embasadas na música independente e autoral. Contudo, sua presença ali se justificava justamente para entender melhor que significa fazer hoje boas versões na música brasileira.

Afinal, muito se fala no meio da música do trabalho autoral, fruto das próprias bandas que o apresentam. Com esta bandeira, separa-se esta nova música daquela de tributos e covers, que comercializaria mais facilmente nomes desconhecidos com hits de grandes ícones. Contudo, poucos prestam atenção a própria canção brasileira, com intérpretes e arranjadores, que retrabalham e criam versões de outros autores desde sempre. Mais uma vez se repetiria a história, sob certa ótica brilhantemente, na música proposta pela banda Quizumba.

Quando surgia em 2008 juntos aos cartazes de festas universitárias por São Carlos, pouco se podia esperar do nome Quizumba. Contudo, vê-los se apresentando permitiria outras perspectivas. Lançando mão de vertentes bem atuais da música brasileira, criavam versões carregadas de um estilo muito próprio e único, dando nova personificação a trabalhos já consagrados com nomes como Chico Buarque, Elis Regina e Clara Nunes. 

Não era de estranhar que a base do grupo já tivesse passado por outros grupos que figuraram na história recente da noite na cidade, com Pablo Mendonza às guitarras e Fábio Salvatti na bateria, vindos de nomes como Zero16 e Lado C. Este bootleg, um das últimas apresentações do guitarrista com o Quizumba, marca a forte personalidade que denota o grupo, junto da voz de Marina Casonato, a Tika.

Hoje, o grupo continua seus trabalhos com novos membros, Marcos Carreri nas guitarras e Muca Matheus na bateria, que se aliam aos remanescentes Tika e Guilherme Ambrósio, baixista da banda. Formam um grupo com raízes fortes no curso de Música junto à UFSCar, Universidade Federal de São Carlos, e já acumulam importantes apresentações por toda região, continuando a gratificante releitura da música brasileira.






Quizumba - 2011 - Ao Vivo na Macacada

Setlist
01. Bola de Meia, Bola de Gude; 02. Ladeira da Preguiça; 03. Conta Outra; 04. Domingo no Parque; 05. Samba do Grande Amor; 06. E o Mundo Não se Acabou; 07. Lavadeira do Rio; 08. Anjo de Fogo; 09. Prece Cósmica; 10. Curto de Véu e Grinalda; 11. A Volta do Malandro; 12. Naquela Mesa; 13. Cara Valente; 14. Para Ver as Meninas; 15. Águas de Março; 16 Tive, Sim; 17. Pedro Pedreiro; 18. Dinheiro (Participação Especial-J.Gheto, do Zero16); 19. Santana; 20. Panis et Circenses; 21. Amor; 22. A Deusa dos Orixás; 23. Partido Alto; 24. Sem Compromisso; 25. Camisa Listrada; 26. Ave Maria no Morro; 27. Bandeira Branca;

Festival Macacada realizado no dia 26 de Fevereiro de 2010, no Campus 2 da USP-São Carlos, promovido pelo MACACO (Movimento Artístico e Cultural do CAASO - Centro Acadêmico Armando de Sales Oliveira). 

Capturado direto da mesa de som em dois canais pelo Programa Bluga (http://programabluga.blogspot.com/) e lançado como bootleg virtualmente no dia 14 de Fevereiro de 2011.

Agradecimentos ao Julinho, responsável pela sonorização da noite, que possibilitou a captura do áudio e também à banda Quizumba (http://www.myspace.com/quizumba) que cedeu as gravações para este bootleg. 

Cobertura: Virada Cultural 2009: Anelis Assumpção, Lívia Nestrovski, Mass Ensemble e Curumin



Já acompanhamos a Virada Cultural a algum tempo, sempre maravilhados com o caráter de gigantesco festival, pela possibilidade de ver gerações de grandes nomes num mesmo dia e local, embora desconfiados da real imersão cultural ali proposta.

Contudo, este ano é a primeira vez em que fazemos a cobertura, apesar de no ano anterior, quando já havia Programa Bluga, termos deixado a cobertura para os anais da mídia convencional e um sem número de blogs.


Em 2008 vimos muitas, mas muitas atrações das mais interessantes rolando, outras perdemos, mas no final não encontramos um material realmente interessante. É quase cômico procurar por blogs relatando algo da Virada e nos depararmos apenas com compilações da programação da Virada, coisa muito bem disponibilizada já no site oficial. Difícil mesmo encontrar alguém que nos trouxesse mais do que vagas impressões pessoais, gostos e desgostos, mas sim que compilasse informações relevantes de maneira concisa, num formato decente e, sobretudo que transmitisse as sensações de assistir a um show, num jornalismo crítico. Isto, sem a pretensão de entender nossa proposta aqui como a perfeita, mas despendemos tempo e esforço para chegar a um resultado mínimo. Enfim, tentamos.

Claro que talvez muitos blogs tenham tido seu alcance diminuído, senão ofendidos, com a proposta da organização de Imprensa da Virada, feita pela Foco Jornalístico Assessoria de Imprensa. Apesar do simples acesso a seção de Imprensa direto no site oficial da Virada, com direito a milhares de fotos das edições anteriores e outras informações, "a concessão de credenciais para as áreas de acesso privilegiado é restrita à imprensa". Esta foi a resposta a nossa solicitação, ignorando quem mais publica conteúdo hoje, os blogs, especialmente material bom sobre assuntos bastante específicos como é com a (boa) música. Não vamos discutir os méritos dessa consideração aqui ou não, deixando isto para gente grande, já que tínhamos quase certeza dessa negativa, só queríamos entender como tudo iria funcionar.

De qualquer maneira, para a Virada Cultural de 2009, pensamos em fazer uma pré-seleção de material todo o material que já conhecíamos e achávamos relevante, procurando ainda pesquisar algo das centenas de nomes que passariam por lá, tarefa perto do impossível. Nisso, apontamos alguns nomes já no nosso post pré-Virada e já deixamos duas resenhas com boa quantidade de informações e setlist completo, comentando Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, no Theatro Municipal no álbum Clara Crocodilo, e Iara Rennó, no Largo Santa Efigênia, apresentando seu Macunaíma Ópera Tupi.

Agora, além de depositar alguns comentários sobre mais alguns nomes que presenciamos, deixamos impressões mais gerais sobre a Virada, do ponto de vista organizacional. Afora os comentários ali de cima sobre a própria cobertura do evento.


Como uma postagem sobre o Arrigo Barnabé, que pode ser vista AQUI, não foi suficiente, vamos a alguns detalhes mais sobre a experiência no Theatro Municipal de São Paulo. Como no ano passado, quando quisemos ver Snegs pelo Som Nosso de Cada Dia, chegamos com larga antecedência. Contudo, uma hora e meia não foi suficiente senão para nos deixar lugares nos últimos dois andares das galerias do teatro. Possivelmente teria valido a pena ter perdido mais uma hora ali, especialmente antes da Virada dar a largada propriamente dita. Afinal, perder três horas em uma fila, o que equivaleria a perder no mínimo três outras atrações potencialmente boas em meio as centenas, é quase um sacrilégio. Teria de valer muito a pena.

Felizmente, uma das poucas atrações que valeria a pena de novo no Theatro, Egberto Gismonti, era imediatamente após o Arrigo Barnabé, deixando de lado qualquer possibilidade de ver as duas apresentações. Foi difícil escolha entre os dois nomes, mas não tanto, ponderando sobre perder horas na fila antes da brincadeira começar ou quando tudo já estava rolando. E Tom Zé que nos desculpe, adoraríamos vê-lo, mas as horas de fila nas poucas (poucas?!) 24 horas de Virada não dá. E Violeta de Outono, bom, vamos ver em casa, no Teatro Municipal de São Carlos nesta quinta!

Ainda do Municipal, é bem ridículo darem-nos o ingresso às portas do lugar, para cinco metros depois tomarem-no de nossas mãos, rasgando-o ao meio. Se era para ter uma estimativa da locação, que isso fosse feito com um simples contador de mão. Grande desperdício de papel (que seria mínimo perto do visto depois). Afora que em nenhuma das atrações que ja presenciamos dentro do Theatro, seja nesta Virada ou na passada, a lotação de 1300 e tantos lugares foi atingida. O que nos faz pensar que eles guardam alguns lugares, pra não dizer quase uma centena, bem visíveis das galerias, para convidados especiais, organização e imprensa, que acabam não usando destes (afinal, se esse realmente é o caso, o ideal era assistir atrás do palco).

E claro, falamos mal das filas do Theatro, mas de outra maneira não seria possível. Levar uma atração deste porte a qualquer dos palcos da Virada levaria a situações como qualquer das que aconteceram no Palco da Avenida São João. Toda a massa está lá, impossível de assistir com um mínimo de conforto qualquer apresentação, ou mesmo de ver mais que um ponto. E não, telões não salvam. Afora que alguns daqueles shows, em sua maioria, precisam do espaço de um teatro para serem sua percepção plena. Feito Jon Lord acompanhado da Orquestra Sinfônica Municipal. Não que ele mereça todo o bafafá feito em cima dele.

Nisso, nossa escolha recaiu em palcos menores. Isto em público e tamanho, mas obviamente não na importância de sua música. Saídos do Arrigo, dirigimo-nos então para o Largo Santa Efigênia para quem sabe pegar um poquito da apresentação de Anelis Assumpção. E, de fato, chegamos a tempo de conferir duas ou três faixas finais, mais o bis! Anelis Assumpção esta acompanhada de Maurício Pregnolatto no baixo, Bruno Buarque na bateria e Cris Scabello na guitarra, todos os três do Rockers Control que ainda bateria por ali mais tarde, mais a menina Lelena Anhaia na guitarra. Faltou só a Simone Sou que muita gente se perguntou onde estava. Como nem de longe vimos tudo, vamos deixar apenas um vídeo pra vocês conferirem.



Agora, um comentário a parte é a escolha quase inconsciente de nossa primeira parte da programação de sábado. Começando toda linha de raciocínio com Arrigo Barnabé... Pulando para Anelis Assumpção, quem é menina? Filha de Itamar Assumpção. Para quem não sabe, Itamar é um dos arranjadores de Diversões Eletrônicas, faixa maior do álbum Clara Crocodilo, de Arrigo, tendo também performando em apresentações da Banda Sabor de Veneno, inclusive na ocasião do Festival Universitário da Canção, em 1979 pela TV Cultura, com Diversões Eletrônicas. Não obstante, Anelis Assumpção é integrante do grupo DonaZica, com influências mil das mais honoráveis, passando tanto por Itamar Assumpção quanto por Arrigo, onde também encontramos Iara Rennó. Filha de Carlos Rennó - outro dos sujeitos que compuseram com Arrigo, desta vez em seu segundo álbum, Tubarões Voadores, autor de A Europa curvou-se ante o Brasil e Mirante - e de Alzira Espíndola, outra de parcerias com Arrigo e Itamar, irmã de Tetê Espíndola, que nos canta também em Clara Crocodilo. Sem contar os arranjos de Arrigo para Macunaíma Ópera Tupi. Das meninas, trata-se de um berço pouco promissor, que, ao mínimo, propiciou muito do afloramento destes trabalhos. Mas é claro que o mérito é todo delas. Felizes de nós. E viva a Vanguarda Paulista!

Enfim, já entregamos que vimos Iara Rennó. Se você não viu, está mais que na hora de ler, aqui, ó, com resenha completa do show e fotos! E no meio da platéia tanto de Anelis quanto de Iara, tínhamos uma presença ilustre, camuflada entre a multidão. Alguém notou a Zélia Duncan assistindo as meninas? Também, pudera, participações de Zélia com o DonaZica AQUI, a Anelis no DVD da Zélia AQUI.

E ali naquele palco, no intervalo das apresentações, presenciamos uma das muitas atrações de rua da Virada, com a Troupe Djembedon, com Fanta e Fadima Konatê, cantando, batucando e dançando, tudo ao mesmo tempo, ritmadas por Petit Mamady Keita. Absurda a percussão proposta ali, que vale a pena conferir o som AQUI, especialmente se você gosta de tambores, não é? Só fique ressabiado ao saber que esta iniciativa tem um dedinho do Santo Daime.

E continuando no Largo Santa Efigênia, ficamos para ouvir Lívia Nestrovski Antes de qualquer coisa, mesmo de saber que ela é filha de Arthur Nestrovski, conhecemos a garota por um de seus muitos projetos, o Grupo Cumieira, antes chamado de Banda Hermética. Ali, entre interpretações de Hermeto Pascoal e composições próprias na mesma linha, Lívia desponta fazendo vocalizações surpreendentes. Eles já estão com uma demo gravada, do mesmo material disponível no MySpace e acabaram de receber uma verba para gravar CD do Fundo de Investimento Cultural de Campinas (FICC). Outro de seus projetos é o Grupo Casaforte que ainda precisamos conferir ao vivo.

Naquela noite Lívia se apresentava com o parceiro (e também marido) Fred Ferreira na guitarra, trazendo o trabalho do Duo Jamaxim. Contudo, por mais que a voz de Lívia seja de um timbre gostoso e de uma técnica impecável, beirando o impressionante, apenas o acompanhamento da guitarra parecia pouco para empolgar o público, ficando o clima de barzinho. Claro que o fato de o som naquele palco não estar nem um pouco perto do razoável também não ajudava muito. Assim, não foram muitos que assistiram a apresentação, mas aqueles que ficaram entoavam baixinho junto com Lívia as canções ou dançavam de mansinho no embalo da voz da menina. Ser citada em diversos veículos, ou simplesmente entrando na programação da Virada como um dos novos talentos é um grande passo para a carreira de Lívia, que escolheu um belo repertório, com a MPB de todos os cantos, especialmente o mineiro, com as canções: Estrada do Sol, famosa na voz de Nara Leão; Modinha, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes; Zelão, de Sérgio Ricardo; Jogral, de Djavan; Clube da Esquina Nº 1, de Milton Nascimento e Lô Borges do grupo e álbum homônimos, Clube da Esquina; Sonho de Marinheiro, de Fausto Nilo; Um Gosto De Sol e Nada Será Como Antes, as duas de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; A Sede do Peixe, também de Milton Nascimento, agora com Márcio Borges. Ainda, depois de incursionar por outros ritmos latinos com autores que desconhecíamos mas acabamos apreciando e nos perguntando que era aquilo, Lívia caiu num bom Jazz, com The Dry Cleaner From Des Moines, de Charles Mingus e Johnny Mitchell, onde faz de sua voz instrumento e como que duela com a guitarra de Fred.

Finda a apresentação, já era hora de dar uma olhada na movimentação nas ruas do centro velho de São Paulo, passeando por cada palco. Nisso, nos dirigimos para tirar a dúvida sobre que seria a tal Harpa Monumental. Chegando a Praça Ramos, ao lado do Theatro Municipal, lugar da instalação, deparamo-nos com uma peça que realmente valia seu nome, já que suas proporções eram maiores mesmo que muitos monumentos ali, com suas cordas partindo das balaustras do Theatro, até o meio da praça, cobrindo coisa de 30 metros. Era o Mass Ensemble, grupo americano de Los Angeles, cuja proposta é transformar prédios, montanhas, enfim, qualquer coisa, em gigantescos instrumentos musicais. E esta arte dessa vez foi feita com o Theatro Municipal, sendo tocada de maneira inusitada pela beldade, Andrea Brook, ora acompanhada da bateria, ora da guitarra e voz de Shawn Barry, apresentavam um som de "moderna erudição", que parou uma multidão à praça, dependurada até no parapeito do viaduto do chá, tanto à meia noite do Sábado, quanto às três da tarde de Domingo.



Para se ter idéia uma real idéia do que é o Mass Ensemble com o Earth Harp, somente presenciando. Ou assistindo a um vídeo, como este aqui. Muito do mérito ali é justamente o tamanho do instrumento, realmente impactante. Contudo, o estilo modernoso dos dois, Andrea e Shawn, também era marcante, assim como as incursões corporais solo que eles fizeram: A noite, o sujeito brinca como eu nunca antes havia visto no Brasil, com correntes com maças em chamas; e a garota performando posições impossíveis do ioga, enquanto Shawn usava pela primeira vez da gigantesca cítara elétrica ali exposta que também causava dúvida.

Voltando mais uma vez para o reduto seguro do Largo Santa Efigênia, era a hora de Curumin subir ao palco. Ele já tinha dado o ar de sua graça naquela mesma noite, tocando com Iara Rennó. Também já havíamos visto o camarada apresentando faixas de seus dois discos Japan Pop Show e Achados e Perdidos no Festival Contato, em 2008, então sabíamos que o show seria no mínimo divertido.


Claro que a fama do rapaz se fez sentida, especialmente naquele horário, quando todo canto estava intransitável. A frente do palco estava lotadíssima, parecendo mesmo a São João. Ponto para Curumin, que atingiu com seu som não só Natalie Portman, mas também as massas.


Mais uma vez acompanhado do baixo de Lucas Martins e o MPC de Marcelo Effori, Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, na bateria, cavaco elétrico e vocais, trouxe suas composições e mais umas: Mal Star Card; Sambajapa; Compacto; Sambito; Kyoto; Everybody loves the Sunshine; Caixa Preta; Guerreiro; Magrela Fever. Antes de mandar a última, ainda trouxe ao palco novamente para uma palhinha Anelis Assumpção, já que ela ainda estava por ali de bobeira, para depois fechar com um reggaezinho.

E atravessar as 24 horas da Virada é tão difícil quanto ser um náufrago em meio ao oceano: parar de nadar é a morte. E como não sabemos nadar, fomos para casa, os que restaram, descansar algumas horas e aproveitar melhor o Domingo, já a luz do sol do meio-dia.

Ainda esta semana, se sobrar fôlego, sai mais uma postagem, com mais alguns comentários gerais da Virada e quem sabe uma visão do show da Central Scrutinizer Band acompanhada de Ike Willis. Enquanto isto, propaganda nunca é demais, leia o texto nosso sobre o Arrigo e o outro da Iara Rennó na Virada e também veja uma reunião de fotos destas atrações no nosso Picasa. E pra acompanhar tudo mesmo, nos siga no Twitter!



Fotos: Fernanda Serra Azul (Arrigo); Ariel Martini (Anelis Assumpção, Iara Rennó e Lívia Nestrovski); Danilo Regi (Mass Ensemble); Vincent de Almeida (Curumin); Montalvo Machado (Central Scrutinizer Band e Ike Willis).

Especial: Programa Bluga Ano Um – Especial de Aniversário


Programa Bluga quer iniciar uma conversa com você.

Vanderlei: Parablugas! Eis que o Programa Bluga faz hoje seu primeiro aniversário. Não que isso seja realmente muito importante, mas é um marco, então comemoraremos a data com alguns comentários sobre o que nós do lado de cá vimos, mas o leitor aí não leu a respeito, porque não escrevemos mesmo. Vamos também relembrar alguns outros fatos memoráveis, claro. Tudo com comentários exclusivos de cada sujeitinho aqui.

Rodrigo: Não é realmente um marco MUITO importante, mas é importante. Pelo menos na medida em que, espero, tenhamos criado alguns leitores assíduos que têm como interesse compartilhar de nossas idéias e críticas em relação ao cenário da música atual.

Com sorte, dentre esses leitores, atingimos algumas cabeças que podem fazer repercutir, pelo menos um pouco, determinados pensamentos aqui expostos.

A todos os músicos e organizadores de eventos que esperam ter um mínimo de feedback (nem que, por vezes, negativo) e a todos que buscam mais informações sobre essa ou aquela banda, vocês são a razão de ser do Programa Bluga e o bolo seria oferecido a vocês, caso fôssemos comer um.

Felipe: Um ano de Programa Bluga! Bom, dou as caras para dar as muitas merecidas felicitações ao blog e, como já dito, comentar os vários eventos que julgamos dos mais notáveis que ocorreram este ano, e também aqueles que passaram sem serem comentados no blog, mas que também achamos relevantes.

Marcelo: Como todo "ano novo" que se preze, vêm também as promessas de mudanças e melhorias. Não que o ano que passou tenha tido cagadas memoráveis que necessitem retificação, mas fica sempre uma vontade de crescimento. Ademais, 2009 pode marcar o ano de um certo êxodo dos blugueiros da cidade de São Carlos que, assim como eu, podem seguir vidas profissionais Brasil, quiçá mundo, afora.

Dessa forma, faz-se necessária a tomada de decisões pelo futuro do blog o que, de minha perspectiva, pode ser uma expansão do blog com novos colaboradores e participação mais ativa em comunidades relevantes. Ou talvez a própria criação de perfis nessa web 2.0 de hoje.

De sobra, temos pique pra continuar e vamos levar o blog ao seu próximo passo, já que nada nessa vida é fixo, muito menos se tratando de música !

Vanderlei: Já que nosso mote são shows, comecemos por eles. No ano que passou não comentamos muito, mas você precisa saber que a Virada Cultural de 2008 foi um lance ALTAMENTE fodástico. Sinceramente é difícil imaginar cenário melhor para o evento, com um show épico do Terreno Baldio, marcando sua volta aos palcos ao lado do Som Nosso de Cada Dia. E isso que perdemos altos lances, como Jair Rodrigues junto com o Zimbo Trio, ou mesmo Tarancón e De Puro Guapos.

Vejamos que acontece na Virada este ano! Conseguirão eles se superarem? Eles abriram inscrições, vamos ver se eles captam algo de novo. Já temos as datas, 05 e 06 de Maio (Não esquecendo da Virada Paulista, dias 16 e 17 do mesmo mês, em trocentas cidades do estado).

Felipe: O primeiro adjetivo que me vem à cabeça pensando na Virada Cultural seria “lendário”. Uma Virada sem precedentes, que reuniu bandas clássicas do estilo favorito dos blugas, o progressivo, contando com bandas como Som Nosso de Cada Dia, que fez um show de retorno memorável no Teatro Municipal de São Paulo, O Terço, Pepeu Gomes, e Terreno Baldio (este que superou as expectativas de todos, e se mostrou o show mais foda da Virada para todos, acredito). Claro, a Virada sempre tem o problema de que você sempre irá perder coisas extremamente fodas, como fizemos com Zimbo Trio, Os Mutantes,Tarancón,Fernanda Takai e vááários outros (que nem faço questão de saber quais são).

Vanderlei: Agora, vamos apostar no que é que vai tocar lá esse ano? Aponto gente feito Marcelo Camelo - que só é grandes-coisa pra um sujeito aqui, e não sou eu - DonaZica ou Iara Rennó ou Andréia Dias - que são muito, MUITO grandes-coisa pra todo mundo do lado de cá. Enfim, entre no bolão e deixe seu chute na nossa seção de comentários, vá lá.

Felipe: Das promessas relativas ao ano que segue, DonaZica, Andréia Dias e Iara Rennó, com certeza. Infelizmente, apenas um dos integrantes aqui teve a oportunidade de comparecer a um show, e nem o viu inteiro por motivos de força maior, mas estas meninas são objetos de profunda admiração a todos do Programa Bluga. Este ano, torcemos tanto para a volta de DonaZica quanto para a continuação do trabalho solo das duas, para o bem da boa nova música brasileira. Lembrando de um dos inúmeros músicos que participa de Macunaíma Ópera Tupi, tivemos a sorte de conferir o grande Guizado ao vivo, que foi um dos pontos altos do Festival Contato de 2008, já comentado por aqui, que se revelou muito mais interessante ao vivo do que em estúdio. Macunaíma Ópera Tupi, de Iara Rennó, é um “must-see” de 2009.

Marcelo: Macunaó.Peraí.Matupi da Iaró.a.renn, eu fui!

Vanderlei: Mas sabe o que seria genial de ver na Virada? Fóssil. Em São Carlos, nossa base de operações pra quem não percebeu ainda, sem sombra de dúvida eu diria que foi o show mais foda que vimos no Armazém Bar em alguns vários anos. Simplesmente explosivo, mesmo tocando para uma platéia de uma dúzia, literalmente. Claro, com o bar vazio e somente pessoas realmente interessadas naquele som, a química não poderia ter sido melhor. O pior é que perdemos a reprise dias depois no Palquinho da UFSCar. Deviamos ter ido à Rio Claro ver de novo. Sério mesmo, fora de série.

Outra apresentação sem precedentes no Programa Bluga, muito bem comentada em postagem por uma convidada nossa, foi a de Mônica Salmaso, ao lado do Pau Brasil, cantando Chico. Dona de voz excepcional, que me comove tanto quanto um nome como Mercedes Sosa, esta senhora-com-ésse-maiúsculo não só fez um show bárbaro como também trouxe possivelmente o melhor álbum nacional do ano um do Programa Bluga.

Felipe: Não poderia deixar de comentar shows como o de Mônica Salmaso com Pau-Brasil cantando Chico, uma preciosidade que quase passou despercebida (graças ao quase!), Fóssil no Armazém, um show quase com exclusividade, que superou em muito as minhas expectativas, Badi Assad no Teatro Municipal de Araraquara (um dos meus preferidos do ano), e mais uma vez Terreno Baldio, dessa vez com algumas falhas técnicas, mas que não ofuscaram o brilho dos caras.

Rodrigo: Não é de se espantar, levando em conta os nomes envolvidos, que um projeto como esse mereça todos os elogios possíveis do Programa Bluga. Mônica Salmaso soma toda sua técnica e potência vocal à genialidade de Chico Buarque, acompanhados do instrumental impecável do grupo Pau Brasil. De cara, vê-se que o resultado não pode ser nada menos do que estonteante!

Marcelo: Ao fazer uma retrospectiva do Ano Um, senti que o Festival Contato não teve o mesmo baque que a primeira edição. Ambos foram fenomenais, mas The DTs e Gong tiveram um grande peso nessa minha percepção.

Ficou foi uma ponta de curiosidade de conhecer os movimentos de outros lugares do país, como em Cuiabá (afinal, é onde nasceu o, agora famigerado, Macaco Bong), ou o Psicodália (que parece ser um lugar onde rock e mulheres aparecem numa mesma proporção).

Vanderlei: Pulando de uma vez para álbuns, dentro do material nacional não se pode deixar de citar o lançamento de Artista Igual a Pedreiro, do Macaco Bong. É quase desnecessário comentá-lo, já que todo canal, seja de música ou não, seja online, impresso, radiodifundido ou televisionado falou dos caras. Enfim, eu diria que ao lado de Noites de Gala, Samba na Rua este álbum é um dos dois melhores de 2008 no Brasil.

Rodrigo: Artista Igual a Pedreiro, que inclusive rolou diversas vezes no ambiente bluguístico que cá nos circunda. Nada demais a acrescentar aqui, exceto talvez a velha pergunta: “Seria Macaco Bong o The Mars Volta brasileiro?” (Não!, obviamente, mas o cabelo de Bruno Kayapy me obriga tal infeliz analogia)

Vanderlei: Já lá fora, altamente recomendável é The Ocean and the Sun, do pessoal de The Sound of Animals Fighting. surpreendente, em especial perante o resto do material da banda, o álbum é fruto de uma evolução constante na discografia da banda, em seus estudos dentro de vertentes mais recentes do Progressivo. Particularmente, imaginemos que o próximo álbum abalará alguns conceitos. Ou não.

Marcelo: Realmente, os kudos de 2008 vão para os sons do álbum The Ocean and the Sun, que aliás me recorda muito a banda Brazil, no The Philosophy of Velocity;

Rodrigo: Interessante observar que todos os integrantes do TSOAF vêm de bandas como Circa Survive, Rx Bandits e Finch. Ou seja, já vêm flertando com o experimentalismo há algum tempo. The Sound of Animal Fighting é uma banda cujo rumo vale a pena ser observado, principalmente para aqueles que buscam algo original (certo, nada é 100% original, mas enfim.) nesse mar de simulacros entediantes que rola pelo meio musical.

Marcelo: E o Death Magnetic do Metallica, que fez de conta não existir um tal St. Anger na história da banda (o que foi ótimo, diga-se de passagem)?

Vanderlei: Pff...

Rodrigo: Uma última recomendação é o álbum Bromio, do trio italiano de jazz experimental, Zu. Composto por saxofone, baixo e bateria, tem um estilo quase indefinível, tendo sido descrito por aí como math-rock/noise-rock/punk-jazz e sabe-se lá o que mais. Interessante e diferente, certamente recomendado pra quem está cansado de ouvir mais do mesmo!

Felipe: Para a parte de recomendações, deixo aqui os nomes de Donazica, Iara Rennó, Andréia Dias (nunca é demais repeti-las), CéU, Badi Assad, para prestigiar a música nacional, e a cabo-verdiana Mayra Andrade, terminando a seção Vocal Feminino.

Vanderlei: Última recomendação? Mais um álbum velho, já que falamos de Zu. Anabelas, dos Argentinos do Bubu. Metais, man, metais!

Felipe: Mais uma vez, deixo meus parablugas ao Programa Bluga, que está começando a engatinhar, e que seja o primeiro de muitos!

Marcelo: E pro Ano 2 do Programa Bluga as esperanças residem em ver um mundo menos sertanejo e mais rock. Como sou um homem simples, só isso já me basta! Não bastando, quero ver um show inteiro da Iara e ouvir Som Nosso e Terreno Baldio novamente. Além de varar várias mais noites em shows, muito bêbado...

Programa Bluga encerrou a conversação com você.

Resenha: Mônica Salmaso e Pau Brasil cantam Chico

Nos dia 18 e 19 deste , apresentou-se Mônica Salmaso em parceria com o quinteto Pau Brasil em seu último show da turnê Noites de gala, samba na rua, no Teatro Municipal de São Carlos, mais recente obra abandonada/concluída da cidade.

Destrinchando um pouco a história dos supracitados: Mônica Salmaso é uma cantora paulistana, eleita em 2002 pelo crítico do The New York Times, Jon Pareles, um dos principais expoentes da música popular brasileira. Tem cinco álbuns gravados, incluindo Afro-Sambas (1997), um duo de voz e violão com Paulo Bellinati, violonista do Pau Brasil, contendo todos os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes; Trampolim (1999) e Voadeira (1999), que renderam à artista os prêmios Visa MPB e Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, além de ambos terem sido lançados também na Europa, Japão, Estados Unidos, Canadá e México; Iaiá (2004) e Noites de gala, samba na rua (2007). O último, tema do show em questão, contém apenas músicas de Chico Buarque e é todo gravado ao lado do Pau Brasil.

E falando neles, o quinteto Pau Brasil é referência para a música instrumental brasileira. Formado em 1979, atualmente conta com o baixista Rodolfo Stroeter, o pianista Nelson Ayres e Paulo Bellinati, violonista, da formação inicial; além deles, temos hoje Teco Cardoso, saxofonista e de-outros-sopros, e Ricardo Mosca, na bateria. A proposta inicial do grupo continha um repertório visceralmente brasileiro, embora advindo de influências diversas, como sugeria o Manifesto Pau Brasil, de Oswald de Andrade. Hoje o quinteto acumula festivais e uma indicação ao Grammy, na categoria Best Jazz Group, em 1996, com o álbum Babel, um dos oito lançados até agora. O último, PAU BRASIL 2005 traz interpretações de Villa-Lobos, Ari Barroso e Chico Buarque, além de composições de Rodolfo Stroeter, Nelson Ayres e Paulo Bellinati.

Quanto ao último citado, o Teatro Municipal de São Carlos “Dr. Alderico Vieira Perdigão”, inaugurado em 1964, foi (re)inaugurado no dia 4 de julho de 2008, para a alegria da população são-carlense, sempre ávida por cultura, depois de sete anos fechado, cinco desses em reforma. O teatro foi ampliado e dotado de novos recursos como um bar no piso da bilheteria e rampas para deficientes físicos. Hoje o teatro de arena e o palco italiano somam uma capacidade para 900 pessoas, sendo 404 a capacidade para o palco italiano, sem mudanças no projeto de 1964.

Depois dessa introdução vamos direto ao ponto: o show. E que show! Todos que puderam compartilhar das pouco menos de duas horas de apresentação não hão de negar que sinestesicamente saborearam a voz de uma cantora excepcional, que alcança notas impressionantes e que estava em perfeita harmonia com o Pau Brasil. O quinteto com afinação e arranjos inspirados das obras de Chico, trouxe também a composição de Paulo Bellinati, Pulo do Gato, fazia uso dos recursos musicais dos instrumentistas de uma maneira surpreendente.

O repertório composto por 16 músicas foi de difícil escolha segundo Mônica. Ela disse durante o show que, após uma revisão cuidadosa de toda a discografia do Chico, chegou a uma lista de míseras sessenta músicas. O restante da seleção foi feita junto ao Pau Brasil, que escolheu as músicas com as quais se poderia fazer bons e diferentes arranjos. Ao fim desse árduo trabalho, as músicas escolhidas foram: A volta do Malandro; Quem te viu, quem te vê; Você você; Ciranda da Bailarina; Construção; Olha, Maria; O velho Francisco; Basta um dia; Logo eu; Morena dos olhos d’água; Suburbano coração; Bom tempo; Partido Alto e Beatriz. Além dessas, a já citada Pulo do Gato, e a música final, de apresentação dos músicos, Moda do Pau Brasil, fecham o pacote.

Entre as músicas, comentários e causos foram feitos pela cantora. A começar pela introdução de Você você, na qual Mônica explicou que Chico Buarque resolveu fazer essa música nas vésperas de ser avô, quando sua filha arrumava o enxoval para ir para a maternidade e, na saída, voltou para o quarto do bebê para colocar uma blusa sua dentro do berço, para que o bebê sentisse seu cheiro o tempo todo e não ficasse com medo, o que explica os versos “Que blusa você, com o seu cheiro/Deixou na minha cama?”

Durante o show, Teco Cardoso se revezava em flautas, saxofones e clarinetes, enquanto Rodolfo Stroeter alternava entre contrabaixo e baixo elétrico. Além disso, Mônica Salmaso fez várias incursões por instrumentos de percussão, incluindo pandeiro e chocalho. Dentre as músicas, algumas impressionaram bastante a platéia, como Construção, com toda sua densidade e poesia, Beatriz, na qual a cantora alcança notas altíssimas com muita maestria, acompanhada apenas pelo piano de Nelson Ayres, Você Você, e o novo significado que a música adquiriu para todos aqueles que não conheciam a história do vovô Chico, e Partido Alto, que fechou o show com toda a leveza do samba, antes da apresentação dos músicos.

Outro causo do Chico contado por Mônica: Numa entrevista, perguntaram a ele porque ele fez a música Retrato em branco e preto com este título, e não como retrato em preto e branco, que é como todo mundo chama esse tipo de fotografia. Ele, com toda a irreverência típica, respondeu: “Ah, eu achei que ficava mais poético ‘Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto’ do que ‘Vou colecionar mais um tamanco, outro retrato em preto e branco’. Há, há!

E uma última historinha, que deixou as mulheres da platéia magoadas com Chico Buarque: diz ele que quando estava compondo Ode aos ratos, precisava de algumas informações biológicas sobre os animaizinhos e ligou para amigo, músico-zoólogo Paulo Vanzolini. Ao perguntar ao amigo como era o nariz do rato, se era gelado, quente, úmido, entre outros, recebeu a seguinte resposta, muito merecida “Mas Chico, você mente tanto sobre mulher nas suas músicas, porque não mente sobre os ratos também!?”, e a réplica veio com uma resposta cafajeste “Ah não, mas pelos ratos eu tenho muito respeito!”

Surpresa também foi a apresentação final dos músicos, a qual foi feita com muito estilo através de Moda Pau Brasil, música composta por Stroeter em parceria com na letra com Mônica, que toma Paulo Bellinati por “jóia de raro quilate”, a técnica de Ricardo Mosca por “a leveza de um inseto”, o maestro Nelson Ayres por “bom de harmonia”, além de dar a receita de seu marido, Teco Cardoso com “misture um saxofone com doutor em medicina” e se refere a Rodolfo Stroeter como “toca um instrumento grave e dele sou muito amiga”. Para não faltar a sua apresentação, o contrabaixista cantou a estrofe para Mônica, aquela que “dá um laço no compasso” e “tem voz de santa”. Por fim, o compositor também teve, em sua homenagem, uma estrofe só para ele, que “escreveu com maestria, dos versos faz seu embarque, a palavra ele cria, ele é Chico Buarque”.

Texto: Sarah Barbosa Segalla

Anotações do Show: Mariana Aydar, no SESC São Carlos

No último sábado o SESC de São Carlos foi brindado com Mariana Aydar. Trazendo o refino da turnê de seu primeiro trabalho solo, Kavita 1, a garota parecia radiante em apresentar-se também para os amigos e a família da cidade que deixou lembranças em sua adolescência, segundo a cantora.

A equipagem do Programa Bluga esteve lá conferindo tudo, a título de apreciação. Vamos dar aqui setlist e algumas das impressões tiradas do show, estreando nosso novo formato, Anotações do Show, mostrando o que conferimos sem maiores pretensões.

Acompanhavam a dama Lucas Wargas nos teclados, acordeão e providencial escaleta; Gustavo Ruiz na guitarra e incursões pelo violão e cavaquinho; Márcio Arantes, da “baixaria” e no violão de sete cordas da abertura; Fumaça na percussão; e Duani, na bateria, direção musical e cavaquinho modulado da última do show.

Tal e qual o próprio álbum, abre a noite a dobradinha Minha Missão e Na Gangorra, pra na seqüência entrar uma das muitas emprestadas para o show, Vai Vadiar, de Jessé Gomes da Silva Filho.

Na volta ao álbum, Vento no Canavial, faixa excelente, escolhida por unanimidade no Programa Bluga como mais bacanuda da noite; Prainha, composta especialmente para Mariana Aydar por Chico César, falando de Trancoso, recanto preferido da cantora; e Deixa o Verão, em excelente versão da música Rodrigo Amarante, famosa por Los Hermanos.

E noutro excerto ao Kavita 1, Mariana trás vários outros arranjos. Consolação, de Baden Powell e Vinícius de Moraes; Tunuka, de Orlando Pantera com letra atirada no dialeto cabo-verdiano, conhecida também na voz de Mayra Andrade, cantora cabo-verdiana recomendada em dica no mesmo show por Mariana Aydar, com quem ela já dividiu os vocais desta composição; Un, Deux, Trois, de Camille, a chamada “furacão francês” (em clara referência ao tão famoso quanto o Katrina); e Beleza Pura, de Caetano Veloso, já encarada no show antes mesmo de cair na novela homônima.

Recomeçando mais uma vez com o material do álbum, Candomblé, Zé do Caroço, Festança e Menino das Laranjas, anunciada como a última, levando a exclamações da platéia e promessa de que teríamos um bis. E justamente pra esse bis, em incrivelmente coincidente pedido da platéia, Onde está Você, com aquele baixo de Ska, pra fechar depois com um “ousado” novo arranjo de Zé do Caroço, com samples do funk carioca, dando nova fantasia a música.

Faltou apenas Maior é Deus, pra fechar todo o álbum e pingar um pouco do forró pelo qual já se conhecia a menina de outras épocas e doutro show no SESC de Ribeirão Preto em 2007.

Genialmente, o show, assim como o álbum, mostra uma fusão da quintessência do samba velho com novos aromas de guitarra, baixo elétrico e samples escolhidos a dedo. No cenário paulista, Mariana Aydar já é apontada como expoente desta e próxima geração, o que com satisfação nós e o já sensível número de fãs observaremos atentos.



http://marianaaydar.umw.com.br/
http://www.myspace.com/marianaaydar
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=162136
http://www.musicadebolso.com.br/videos/volume07/index.html