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Resenha: Aeromoças e Tenistas Russas, meninos e crescidos.


Já fazia um bom tempo que se precisava voltar a falar aqui destes camaradas. Conheci a Aeromoças e Tenistas Russas ainda no começo de suas apresentações, em 2008. Na época, já me impressionaram bastante, enquanto explorávamos novas bandas do meio dito independente de São Carlos. Hoje, três anos mais, muito mudados, nada mais justo que abordá-los novamente. E nenhum momento seria mais oportuno para fazê-lo que não na própria São Carlos quando atravessam uma turnê por dois estados, com onze shows, ao lado de uma das mais importantes bandas do cenário no país.

Quando em 2008 resenhei pela primeira vez a banda (a resenha pode ser vista aqui), eles já vinham de alguns bons shows em São Carlos, tendo passado pelos palcos do DCE-UFSCar, do CAASO e pela festa de lançamento do Mozilla Firefox 3.0, no Armazém Bar. Nesta época, tinham um repertório bastante enxuto, mas bem redondinho, com composições autorais e mesmo umas instrumentais, entremeadas por versões de músicas como Um Lugar do Caralho de Jupiter Apple e Fuscão Preto de Beto Lee até lances como Superstition e Play That Funky Music White Boy, com estas duas últimas tocadas sem vocais, só no sax. Enganavam os desavisados ao mostrar sujeitos barbados e não as comissárias das asas da Panair servindo coca-cola e muito menos o serviço no saque de uma Anna Kournikova.


Desta vez, já tendo carimbado o passaporte por Uberlândia e Uberaba, Franca e Araraquara, na noite de 23 de Março fariam mais um lance no palco do DCE-UFSCar, universidade onde surgiu a banda, o quinto show da turnê. Quem abria aquela noite eram The Baggios, duo sergipano de guitarra e bateria numa linha de blues rock a la White Stripes e Black Keys. Quem vinha na sequência eram os sujeitos do Porcas Borboletas (e a resenha desse show está aqui), com seu pós-punk oitentista bebedor dos paulistanos de vanguarda e dos clubes de esquina, já com mais de dez anos de estrada. Mas quem fechava mesmo esta Noite Fora do Eixo eram os Aeromoças e Tenistas Russas. Se para muitos quem encerra a noite é a banda principal, aqui quem fazia este papel então eram eles, donos da casa, mantendo o público vivo e ansioso até o fim.

E traziam uma tenista, não a Kournikova, mas uma Kirilenko. E faziam uns e outros voar, senão nas poltronas da primeira classe, em devaneios oníricos sem mesmo fechar os olhos.

Naquela primeira resenha sobre a AeTR, o importante era entender as influências que a banda tinha enquanto grupo de estudantes do curso superior de Imagem e Som da UFSCar. Tanto as referências musicais, das mais distintas pela própria origem de seus integrantes, quanto a abordagem diferente sobre cinema, propaganda, plástica, enfim, arte, dada pelo choque universitário, permeavam suas composições, bastante passionais neste sentido. Hoje, contudo, assomam-se a estes outros fatores, como ter botado os pés em palcos de vários cantos, dos bares mais infernais às grandes armações de festivais país afora, apresentando-se a públicos muito diferentes, desde condições de equipamento castigado e técnico de som ruins até a acústica de um teatro, tudo lado a lado com bandas das mais distintas. Assimiladas estas experiências, aliadas ao próprio tempo juntos, que lhes dá mais chances para conhecer um ao outro seja no dia-a-dia daqueles que dividem sala de aula e casa, seja na composição, no ensaio, no estúdio, no palco e nos bastidores, há um amadurecimento notável.

Hoje, saem daquela linha inicial de músicas mais atiradas, cruas, para um novo material bem trabalhado, com mais personalidade ainda, sem contudo perder energia. As muitas influências permanecem, mas convergem melhor dentro de uma mesma música, sem excessos.

No conjunto de suas composições mais recentes ainda exploram vários sentimentos, ora mais etéreos e cíclicos, como em Solarística, ora mais explosivos, como em Kirilenko. Em conversas com o grupo revelou-se muito do seu método composicional, feito em cima de jams, em que um trás um riff bacana, outro uma melodia e desta experimentação tem-se o refino do material que chega até nós. Daí as composições tão diversas, fazendo um show ir da melancolia a rebeldia em poucos minutos.


Claro, há que se lembrar que há um fio que liga estes elementos todos, criando uma identidade bastante única para o grupo. Este elo passa a ser, em suas últimas composições, a acuidade com que passam a tratar seu material mais bem acabado ao mesmo tempo em que exploram um lado pop, grande pegada de suas músicas desde um primeiro momento. Atacam com assinaturas ritmicas que marcavam o progressivo, o que é bastante inusitado ao som proposto, porém, em composições por vezes espasmódicas, mais curtas mesmo que o comum do Pop Rock. Estas composições curtas vem possivelmente como característica do trabalho feito em cima de jams, explorando certos temas, como no Jazz, a exaustão, sem as deixar pobres, muito menos desgastados. Ao final, usam da música enquanto linguagem máxima para expressar seus sentimentos ao mundo, instrumento natural. O fazem buscando certos moldes em diferentes meios, fazendo sua sonoridade rememorar a várias outras e ao mesmo tempo reverberar originalidade. E estes são os aspectos que, como outros nomes, os fazem sobressair-se a um mundo onde surgem bandas e mais bandas, facilitadas pela disseminação e democratização da tecnologia.

Em suas peças últimas este amadurecimento de suas ferramentas de composição é notável. O reflexo deste trabalho é imediato no contágio do público que passa a também cantarolar mesmo suas instrumentais, tão forte são as linhas impostas ali. Tal empolgação por parte da platéia é conseguida por poucas instrumentais. Se chamá-los de Pop Rock seria leviano apesar deste poder por conta daquelas características pouco usuais, nada mais próximo do que apontá-los como Pop Rock Progressivo.

Mas não só pelo seu trabalho direto enquanto música há esta aproximação forte com o público. Também há um trabalho forte na formação deste, através de contatos e deixando suor na estrada.

Na noite que tomamos para ilustrá-los, Aeromoças já com seus três anos fica lado a lado com gente feito o Porcas, com bem mais tempo de estrada, em turnê por onze cidades. Ao longo da turnê, ora abriam, ora fechavam pro Porcas, mas em São Carlos precisavam fechar, porque fizeram um show épico, com um setlist acertadíssimo feito para a turnê e participações especiais com direito a jam session ao final, mostrando em casa, aos amigos, onde eles chegaram. Era antes de tudo uma pequena prova de vitória. Isto tudo por um processo longo, sempre galgado, de penetração e conquista. Me lembro de uma primeira experiência longe de casa, quando iam a Brasília apresentar-se pela primeira vez num Festival, apesar de sempre estar circulando pela região de São Carlos, Araraquara, Ribeirão e afins, pra saber depois que acabou não acontecendo. Depois disso, passaram pela 4ª Semana do MACACO apresentando-se com o que viria a ser o Projeto Acusmática, fazendo trilha sonora ao vivo para o curta Regen numa parceria com a RUA. Passariam então pelo Festival Contato em mais de uma ocasião, Festival de MPB da UNESP de Ilha Solteira até o Festival Macondo Circus em Santa Maria no Rio Grande do Sil, no fim de 2009. Já entrando este ano, fariam uma empreitada forte, ao singrar o estado de São Paulo tocando em oito cidades pelo Grito Rock. Esta, assim como a turnê que acabam de atravessar, é uma possibilidade dada pela articulação forte existente hoje entre os diversos coletivos de música independente do Circuito Fora do Eixo, como comentávamos outro dia. Esta inserção neste contexto se deu muito por este esforço do grupo e proatividade, parando hoje dentro de um dos que mais cresce hoje, o Massa Coletiva, em São Carlos, figurando mesmo no portifólio de bandas que o coletivo porta, que passa a alavancar isto exponencialmente. Hoje não mais presos a São Carlos, encaram-se como profissionais, saindo às portas do mundo.

Dito isto, entremos aos pontos mais imediatos do ao vivo, fazendo o que começamos aqui fazendo, trazendo as impressões mais fiéis dos shows, relatos vivos. Lá já a alta hora como sempre estavam os sujeitos que entoam às Aeromoças e Tenistas Russas. Thiago "Hardie" Gonçalves, alternando-se em guitarra e sax, com algumas incursões aos vocais, Juliano Parreira ao baixo e alguns backing vocals, Luiz Gustavo "Hoolis" Palma nos teclados e mais backings, e Nilo Gomes na bateria. Quando em 2008 seu show tinha lá sua dúzia de músicas, apenas metade delas era própria. Agora, apresentam todas sendo suas, sinal do apreço que passam a ter por sua capacidade depois destes caminhos todos trilhados.

Abriam esta apresentação com um excerto instrumental foderoso, mostrando para aqueles que quem sabe ainda não conhecessem seu nome que não se tratava de um grupo qualquer, quando fazem mesmo o rock dispensando a guitarra em alguns momentos para inserir a sonoridade do sax na faixa Jacques Villeneuve Experience. Combinação bombástica, faz todos já de cara balançarem. Aos que conheciam, era já uma melodia impregnada na cabeça, como muitas outras, por aquele forte molde pop a que se apegam. Continuando no instrumental, mostravam uma de suas últimas composições, estreiada a nossos ouvidos no Festival Contato de 2008, Smonkey Skulls, com Hardie já com guitarra a mão. Está é mais um daqueles exemplos em que exploram vários recortes dos mais divertidos agregando-os em torno de uma linha.

Sagüís, terceira da noite, seria mais uma instrumental, não fosse o convite para a participação do MC J.Gheto fazendo versos de improviso acompanhando uma das mais frenéticas faixas da banda, das primeiras bacanudas compostas. Cantava lá ele "Vem com nóis quem puder, escuta nóis quem quiser" dando vazão aos sentimentos presos na rítmica.

Depois desta era hora de mergulhar no tempo de suas primeiras composições. Aqui num dos poucos momentos do show exploram o lirismo de letras a suas músicas, com impressões mais imediatas de suas intenções, justamente naquele primeiro ciclo de seus trabalhos. Armavam o Bang Bang, com uma mais simples, mas de letra mais esquizofrênica de todas, feito o ícone saído do cinema novo que lhe dá nome. Emendavam Samba, letra das mais icônicas, de refrões fáceis mais verdadeiros que caem a boca do povo, que os entoa a todo show, com espaço até para cantarolar de melodia dissociado do instrumental, feito o que seria muito da própria estrutura do samba que lhe dá nome.

Este excerto de letras cotidianas e irreverentes dos seus primeiros trabalhos ainda marcam muito seu repertório, deixando margem a apontar a fase como transição. Se existe um limar de material, deixando de lado composições como Ensolaradas e Desfibrila, que há muito não vejo ao vivo, ouso dizer, contudo, que isto é uma aceitação deste material, valorizar de um trabalho antigo que caiu ao gosto popular, em especial no tocante a Samba. Daí é que surge o termo, parafraseando Fred Gomes, que prova que eles fazem "música instrumental cantada". E mesmo estas músicas mudaram muito desde a época dos primeiros shows. Ganharam novos arranjos dando mais corpo a algumas, mais ritmo a outras, tornando tudo mais interessante.

Outro momento para celebrar com convidados e amigos novos surge Sex Sugestion, no que chamaram de Motel Version. Composição das mais recentes, já com uns rearranjos provavelmente feitos nessas incursões estradeiras do Grito Rock e da turnê Fora do Eixo, apontando ainda mais uma das várias participações da noite, com o Moita, do Porcas Borboletas, empunhando a guitarra enquanto Hardie fazia as vezes novamente ao sax dourado-esmalte-preto.

Já com a guitarra de volta às mãos de Hardie, traz-se mais uma de suas composições com letra, Mirella, também uma daquelas seis primeiras autorais com que se apresentaram em 2008, falando das crises do homem frente à uma mulher, temática por muito abordada na história do Rock. Na sequência, com Instrumental 1456, a idéia de música instrumental cantada é reforçada, quando no próprio título da faixa carrega-se o "instrumental" e ao mesmo tempo trata-se de uma música com letra e tudo. Isto, muito porque as vozes são usadas dentro da melodia traduzida então por baixo e guitarra, servindo também de instrumento.


Encaminhando-se para o excerto final, encerrariam sua apresentação mostrando todo seu fulgor justamente com minhas três composições preferidas. E isto muito porque são as mais bem lapidadas, resultado final de seus processos. Com Insomne, davam espaço para Jack, percussionista do Porcas, ainda com seu set de percussão bizarríssimo montado no palco, munido de latas de tinta, pedaços de metal e canos diversos, como muito visto em brincadeiras com outra banda instrumental conhecida de todos. Essa é a maturidade de que falamos. Esta faixa, se fossemos relacionar suas músicas e a metragem e cunho dos filmes, seria um curta dos mais experimentais hoje. Explora aquelas temáticas e evolui para um final arrebatador, com elementos do avant-garde.

Seguiram com Solarística, que facilmente poderia ser apontada como melhor faixa já composta pela banda. Texturas várias, melodias escolhidas a dedo, cercadas em ambiente bizarro, quase hostil, ao mesmo tempo que hipnotizante. Justamente, uma das mais aclamadas pelo público. Isso, porque dá pra sentir que é das melhores, quando põe todos a captar e emanar energias invisíveis e inconscientes, de maneira inebriante.

Fecharam tudo com uma das mais recentes músicas, Kirilenko. Levada já a estúdio, sua gravação teve todo o processo registrado aqui, com tudo feito no home studio do Massa Coletiva. Esta, vem para provar a miríade de sentimentos explorados pelos barbados do AeTR. Depois de buscar certo desespero invocando a insônia, entrar em sonhos de fato na consciência, um despertar de energia. Agitada, finalmente fazendo alusão com uma tenista, Maria Kirilenko, apontando ao mesmo tempo a beleza e a energia vibrante. Neste excerto final, se algo pode ligar as três, todas instrumentais, são as diferentes energias que se sente uma-a-uma.
Mas fecharam tudo mesmo? Depois até de saírem do palco, os pedidos foram muitos, não podendo deixar de rolar mais uma. Não um repeteco, mas um encore. Escolheram para tanto rememorar a época em que tocavam versões de músicas conhecidas, com a sua versão de Play The Funky Music White Boy. Claro, outra intenção escondida aí era poder trazer ao palco vários convidados e fazer uma jam. Jovem Palerosi em intervenções de scratchy e samples, incrementando-se depois com mais percussões do Jack. Sem parar, contudo, saíram daquele Funk para entrar na verdadeira sessão de improviso, chamando Gustavo Koshikumo, que vinha acompanhando as duas bandas pela turnê garantindo o bom som saindo dos PA, para se apossar da Tajiminha verde e cereja de Hardie enquanto ele desfilava os dedos pelo sax. Caíram nisso até no Reggae depois de quinze minutos de despudor final, com Jack chamando todos com um "Vamô Saravá!".

Ainda passariam depois de São Carlos por Campinas, Bauru, Ribeirão Preto, São Caetano e Bragança. Toda esta turnê é documentada no blog Fora do Eixo Tour. Antes de vir ao palco na nossa terça-feira daqui, já tinham aportado por São Carlos na segunda-feira, batendo ponto no programa Independência ou Marte na Rádio UFSCar junto do Porcas, falando um pouco sobre a turnê e rolando uma jam entre as duas bandas. Tudo pode ser conferido na íntegra no player abaixo.



De últimas considerações, se lá em nossa primeira resenha sobre eles se dizia que iriamos acompanhar de perto a evolução da banda, que mal começava e já vinha "com um repertório bem pensado, com material corajoso, regado a inusitados atrativos", pois bem, estivemos presentes em vários de seus momentos e aqui está sua virada, talvez um auge, que esperamos ser um primeiro. Com um público já consolidado, resta saber como irão mante-lo sem perder toda esta identidade já bem construída. Há que se lembrar que o público é mutante e apesar dele ter o nome Aeromoças e Tenistas Russas a ponta da língua, novas levas de nomes vem a pauta a toda hora, muitos deles com dinâmicas semelhantes a este grupo. Mais que isto, como estes sujeitos irão explorar esta identidade, sem deixar suas composições se renderem às demandas imediatas do público ou seu modo de composição estagnar, é o mais inquietante. Há que se conduzir tais mudanças com sensatez.


Setlist da Turnê
01. Jacques Villeneuve Experience; 02. Smonkey Skulls; 03. Sagüís; 04. Bang Bang; 05. Samba; 06. Sex Sugestion (Motel Version); 07. Mirella; 08. Instrumental 1456; 09. Insomne; 10. Solarística; 11. Kirilenko;
BIS
01. Play That Funky Music (emendando jam de reggaes e tudo!)


E mais fotos da passagem da turnê em São Carlos podem ser vistas no nosso Picasa!


Cobertura/Agenda: Última chamada para o Festival Gaia


Realizar-se-á nesse fim de semana, dias 26 e 27 de março, sexta-feira e sábado, o Gaia - 1º Festival Sustentável de Cultura, promovido pelo Coletivo Colméia Cultural, numa realização conjunta com o Circuito Fora do Eixo, com parceria da Prefeitura de Araraquara. O evento terá o parque Pinheirinho como cenário para as diversas atividades: pirofagia, esquetes, cinema, teatro, dança, palestras, workshops, performances, malabarismo, exposições, intervenções e instalações artísticas, fotografia, artesanato, graffiti, literatura, gastronomia, oficinas, camping, shows, 10 bandas, e mais sabe-se lá o que e o dia todo, desde manhã, cedinho; ufa! Tudo em prol do pensamento sobre a sustentabilidade ambiental – importante destacar o peso que o evento trás sobre essa dimensão.


No último domingo, dia 21 de março, o Colméia realizou, juntamente com a Prefeitura e Fora do Eixo São Paulo, o primeiro Pocket Show do ano – edição especial, pois contou com bandas da turnê do circuito: Aeromoças e Tenistas Russas de São Carlos e, pela primeira vez na cidade, Porcas Borboletas de Uberlândia, Minas Gerais. A turnê passou nessa terça-feira por São Carlos, no DCE UFSCar, e continua circulando pelo interior paulista. Não me prenderei aqui numa resenha das bandas, já que na verdade esse texto tem o intuito de entrar para a seção Agenda, mas logo quitaremos a dívida com uma nova e merecida eminente resenha sobre nosso caro Aeromoças e Tenistas Russas, e, em outra oportunidade, podemos nos dedicar ao Porcas Borboletas – vou me conter, por hora, em comentar que, quanto a banda mineira, me chama a atenção a influência de Arrigo Barnabé na adoção da estética das histórias em quadrinhos transposta em música, um dos aspectos que marca o trabalho de Arrigo.

O Pocket Show, que ocorre no Teatro Wallace Leal Valentin Rodrigues, já é conhecido pelo público araraquarense. É um espaço que tem sido ocupado desde o início pelo GUTE – Grupo Urucum de Teatro Experimental. O grupo possui um repertório em constante transformação, como sugere seu nome, permeia por diversas formas de expressão e não se fixa numa fórmula, experienciam artes circenses, mímica, comédia escrachada, esquetes, performance, poesia, teatro de rua: é o integrante essencial para que se tenha a integração das artes buscada pelo Coletivo Colméia. Juntamente com a banda psicodélica araraquarense Os Rélpis, o Grupo Urucum é pilar fundamental da constituição do coletivo. Completam essa colméia o grupo Piromagia e a banda Ruido Fino, que já conectada ao coletivo se prepara para circular pelo Fora do Eixo após se apresentar no Grito Rock da cidade, em fevereiro.

A inserção de Araraquara, pela primeira vez, no festival integrado Grito Rock desse ano foi o primeiro produto do Colméia. Para Caiubi Mani, baixista do Os Rélpis, a formação do coletivo, que se deu no segundo semestre do ano passado, sempre teve como norte se tornar um dos 43 pontos que existem atualmente espalhados por 20 estados brasileiros pelo Circuito Fora do Eixo. É atribuído ao Massa Coletiva de São Carlos, ponto de referência regional do circuito, parte do esforço para o Colméia figurar na rede.

Dessa vez, por iniciativa do coletivo, surge o Festival Gaia, uma produção de caráter mais autônomo, onde esses artistas reforçam sua função técnica de produção do espaço artístico. Segundo Caiubi não há distinção no coletivo entre artista e produtor, todos respondem por essas tarefas: artista igual pedreiro – citando o lema que é título do álbum da banda Macaco Bong, de Cuiabá (MT).

O Pocket foi o terceiro evento realizado envolvendo o Colméia. Após o Grito Rock, durante os preparativos para o Gaia, lançaram um pré-festival no dia 12 de março, também no Teatro Wallace, sendo um importante meio de divulgação e movimentação artística, unindo o útil ao agradável. Já o pocket show não teve esse intuito formal, mas foi na prática a última chamada para o Gaia, criando o clima para o que está por vir. Durante a execução de Sax Sugestion (Motel Version), na apresentação de Aeromoças e Tenistas Russas, uma performance surpreende o público. Com um figurino composto somente por embolados de estopa, tendo folhas por entre os fios e o corpo inteiro coberto por pigmentação esbranquiçada tal qual lama seca, a artista, com batuque e poesia, revelava a Natureza por trás de sua feminilidade. Oscilando por outras vielas teatrais, o grupo Urucum trás Shirley, uma escrachada personagem satírica inspirada nos programas de prêmios na TV. Bem mais poético, Brincadeira com Bexiga e é um belo trabalho de mímica que incute peso e leveza, vida e personalidade ao mais ordinário objeto, tornando-o magnífico. Outros espetáculos se seguiram refletindo a constante vontade de criar e recriar do grupo. Dois Idiotas contou com a participação de Garboso, vocal que toma a frente do Os Rélpis.

Contudo, não fosse a dança, nada seria completo. Muitos assistiram ao espetáculo Contraste (peço desculpas por não ter prestigiado). Mas somente alguns foram presentados com a expressão pura da Cia. Caipira. Permeando pelo público, oferecia o privilégio de uma relação íntima e única com a artista. O convidado é equipado com fones de ouvido conectados a um mp3 player; a trilha sonora é pretexto para num átimo sentir-se envolto, a ponto de perder o fôlego diante da intensidade dos movimentos próprios de um momento singular, com a ciência de que a expressão da alma em passos verdadeiros nunca se dá duas vezes. Tal qual esboço do hábil desenhista que capta o movimento do corpo que passa, Estudos para dia sem sapatilha trata da essência, ao passo que flana sem intermédios pela multidão e supera a distância que a sapatilha delimita entre a dança e a vida.

Neila Andrade diz que a Cia. Caipira não almejou agora grandes espaços e nem procurou destaque no evento, está interessada na pesquisa, por isso deixa claro que vieram realizar estudos – se dispensam sapatilhas, ainda mais palco; mas têm ocupado os espaços. A performance foi levada para a Mostra Audiovisual de Cambuquira (MOSCA) em julho do ano passado, em outubro na Unesp Araraquara e este ano, em março, novamente na Unesp, em ocasião da programação dedicada aos calouros. Possuindo também outras propostas, A Cia. Caipira – Grupo de Dança Contemporânea de Araraquara é formada pelas bailarinas Dany Gianotti, Hiadine Correa e Neila, com Direção de Maria Moema. Focado no trabalho artístico, o grupo não discute inserir-se no Colméia Cultural, mas poderemos ter a felicidade de nos deparar com as meninas já nesse Festival Gaia. Não é de se pensar duas vezes e acabar deixando de prestigiar a respeitável produção artística araraquarense contida nesse inédito festival.

A cobertura do Programa Bluga sobre o Gaia começa aqui, em breve postaremos o que rolou. Confira a programação completa e outras informações na página do Colméia Cultural.

Ensaio: Do Grito Rock São Carlos - Continuando.


Este ensaio dá continuidade ao texto publicado aqui na ocasião do Grito Rock de 2009, em que falava-se do evento em São Carlos e de seu organizador, o Massa Coletiva, numa de suas primeiras grandes ações feitas na cidade. A bem da verdade, tomou-se ali o Grito Rock e o Massa como exemplo para pincelar as ideias que giravam ao redor da lógica estabelecida em torno dos festivais de música independente, as bandas que deles participam e o público que os assiste.

Na época, nos trouxeram várias críticas em cima das próprias considerações daquele texto, que falava numa menor escala da lógica envolta no mercado paralelo que é a música independente e apontava com maior destaque os entraves por ele gerados a evolução enquanto forma e conteúdo da música, deixando de lado questões como a visibilidade e até certo o respaldo ganhos por este mercado. O texto ainda é pertinente dentro destes aspectos, quase passível de republicação mudando-se tão somente a data, já que não houve grandes mudanças neste cenário. Contudo, algumas justificativas carecem de maior delonga, então, eis aqui outra tentativa.

Naquele texto de 2009, houve interessantes réplicas nos comentários de Cardelli, vocalista e guitarrista dos Visitantes. Contudo, lá não se falava em falta de originalidade por parte das bandas, como inferia Cardelli, mas sim da estagnação em torno de forma e conteúdo e mesmo da estética por elas produzida. Estagnação, senão retrocesso, que ainda assim dá margem a originalidade, mas frente a insistente pós-modernidade na mescla de gêneros e elementos étnicos recai na fórmula maceteada usada por um sem número de nomes da música hoje.

De todo modo, a crítica daquele texto não era tímida, só era ponderada, porque de fato há aspectos interessantes nessa história toda. A crítica, na verdade, reside no simples fato de que nada se faz de diferente falando dos festivais do independente, coletivos e afins. Cria-se apenas um mercado paralelo, uma franca necessidade dos tempos em que implode o número de bandas e o acesso a elas fica facilitado, pela velocidade tanto da produção musical quanto de sua divulgação em função do mar de tecnologia aberto nos últimos vinte, trinta anos, mas mais especialmente na última década. E este mercado não é recente, provavelmente sempre existiu, sob diferentes óticas, em diferentes momentos.

Por exemplo, hoje mesmo, tomemos das metrópoles, grande São Paulo. Essa articulação lá não parece precisar de fato dos coletivos, acontecendo de uma maneira ou de outra. Tanto que o grande coletivo paulistano é o próprio Massa Coletiva, em São Carlos. Não seria estranho pensar no representante estadual dentro do Fora do eixo estando fora da capital? Mas faz todo sentido. Em tempos de ALTERCOM, São Paulo tem canais de comunicação demais, muita informação transitando nos meios, sendo tão fácil chegar as pessoas que algumas preferem a inanição a aproveitar o que a cidade oferece. Fato é que em São Paulo o mercado independente e o mercado convencional se mesclam, em certa medida, de tal forma que é difícil desvincular um do outro, aos olhos menos atentos. Fora dos grandes centros esta iniciativa é provavelmente necessária para fazer tudo acontecer, do contrário o mundo iria definhar, já que o grande mercado ali não chega. Afinal, não é essa a ideia, fora do eixo? Que eixo? Rio-São Paulo. Curitiba, Brasília, em menor escala. Porto Alegre?

Inegavelmente há uns vários aspectos interessantíssimos dos festivais envoltos na rede estabelecida de música independente, em específico do dito Grito Rock, que nunca deixo de comentar. Depois de limpar os pés no capacho da porta de entrada do ano, se cria uma outra agitação para a época de Carnaval, colocando indiretamente alguns questionamentos a esta conturbada e polêmica festividade. Afora isto, quando se põe em xeque desta maneira muitas das atividades desenvolvidas na linha destes festivais, outros produtores não ligados a estes coletivos e alheios a esta lógica acabam empolvorosos. E vale destacar que este mercado é cada vez mais monstruoso ao perceber como é exponencial o número de cidades envolvidas nos festivais, bandas circulando e público participando.

Um reflexo da forte articulação destes coletivos é por exemplo a possibilidade de bandas ligadas a estes atravessarem em menos de um mês as cidades de um estado inteiro, senão várias cidades ao longo do país, pelo Grito Rock. Os Rélpis, de Araraquara, ligados ao coletivo Colmeia Cultural, e o Aeromoças e Tenistas Russas, de São Carlos, ligados ao Massa Coletiva, são exemplo notável disto. A despeito da boa qualidade do material, sem esta ponte propiciada por iniciativas como as do Toque no Brasil, portal que agenciava bandas, casas de shows e os coletivos para o Grito Rock, bem como o apoio e articulação dos Coletivos, eles não teriam conseguido esta visibilidade tão facilmente. Logo, conquistaram o Estado, especialmente porque os dois shows estão muito bons, a ponto de precisarmos resenhar Os Rélpis com urgência e re-resenhar AeTR, com o repertório muito mudado já.

Há ainda o mérito do desenvolvimento sustentável, a patavinha da economia solidária e tudo o mais, mas não vamos entrar nesta discussão no momento, deixamos as considerações pobres mesmo neste quesito.

Retomando, como bem é mostrado no Identidade Musical usando da palavra de Luiz Tatit, sempre houve o independente, o artista a margem das grandes gravadoras ou mesmo de qualquer gravadora, que acumulava tanto a função técnica quanto a artística. Afinal, as verdadeiras demos não eram fitinhas com um nome escrito na fita crepe a caneta? E em alguma instância, a grande maioria tanto de antes quanto de agora invariavelmente pensa em atingir, senão o grande mercado das gravadoras, pelo menos o status dos artistas delas.

Sendo bastante pragmático, me apoio mais uma vez no texto do Carlos Rogério do Identidade Musical, apontando que os modelos continuam os mesmos e o público mal sabe a valorizar os projetos ousados. Mas aquela conversa sobre estagnação rivaliza com os projetos ousados. A questão é que mesmo os projetos ousados, citados por Carlos Rogério, como Macaco Bong e Porcas Borboletas, não o são tanto assim. Macaco Bong bebe de muitos elementos lá de fora, vide Russian Circles. Porcas, poutz, já me eram óbvias influências da estranhamente desconhecida Vanguarda Paulistana antes mesmo deles surgirem junto do Paulo Barnabé. Claro, nem por isso deixamos de gostar e desmerecemos. É bom trazer estas influências, é bom mostrar ao mundo que mais há, é bom inseri-las aqui, e é bom fazer o que se quer.

Se é que ainda não se aponta armas às bandas que continuam a produzir seguindo modelos velhos ou inserindo-se em fórmulas já concebidas de inovação, o que se questiona aqui faz muito tempo é o papel destes coletivos todos, destes festivais todos, enfim, da música independente, em mudar esta concepção estabelecida e tão enraizada do que é fazer música. Acontece que o interesse destes grupos não é mudar isto, pelo menos não o que importa. Afinal, é notório que toda esta rede é uma mercado paralelo, uma indústria exatamente como o mainstream, com um modelo de negócios como bem diz Pablo Capilé para O Inimigo ou como Bruno Nogueira no Pop Up! afirma ao apontar o caráter de feira de negócios que se vê na Feira da Música do Circuito Fora do Eixo. Quase demora pra se perceber isto. E o pior é que todos eles tem plena consciência disto. E não se importam. Afinal, é um ganha-pão. Engraçado é que eles debatem, insistem na proposta, vendem a ideia a todo custo, mas nunca dizem quanto ganham.

Aí, é mais demorado ainda perceber que não, eles não estão aí pra mudar o modo de fazer música. Não é o interesse deles, talvez sequer seja seu papel. Eles estão aí para mudar o modo de vendê-la. Ou não mudar, mais propriamente, apenas encontrar alternativas para fazê-lo. No termo 'mercado da música independente', a música é a mesma, só muda o mercado. Parafraseando o bom dito do nobre Djalma Nery Ferreira Neto, a música independente é feito a abolição da escravatura: É só uma conjuntura da lógica de mercado se adaptando a novas condições sociais.


Ensaio: Móveis vs. Los Hermanos - Um Público Só?


Ontem o Móveis Coloniais de Acaju se apresentava no Festival Alto Verão, em que fim-de-semana passado rolava Macaco Bong. Bongs, que aliás, fizeram um show épico, acompanhado dos sopros do Móveis, de Vitor Araújo, pianista precoce que vem ganhando nome ao agregar elementos do Rock ao piano erudito, Siba com sua rabeca e Jack, percussionista dos mineiros Porcas Borboletas. Felizmente, para nós que não vimos e para o registro histórico, houve uma gravação do show e há prenúncios de que o mesmo será lançado logo mais!

Vai lá um dos muitos vídeos que o pessoal do Urbanaque fez da apresentação dos sujeitos:


De todo modo, falando de Móveis, já esmiuçamos duas apresentações dos sujeitos, uma a época do auge da turnê do primeiro álbum, outra vez à exata época do lançamento do segundo, disponibilizando bootleg e tudo. Então, vamos abordá-los por outro lado, desta vez...

MAS, você certamente já ouviu falar de gente comparando o Móveis Coloniais de Acaju com Los Hermanos, não? Nunca me fez sentido esta comparação. Eram duas propostas completamente diferentes em estilos completamente diferentes:
Los Hermanos era Hardcore, dessas alternatividades, pelo menos ao primeiro álbum, enquanto Móveis Coloniais era Ska, altamente influenciado pela música Folk dos Balcãs; Hermanos é egoísta, (sem usar dos valores pejorativos da palavra, no sentido da valorização do ego), levando para sua poesia expressões do acometido a volta de seus sujeitos-compositores, alta classe média carioca, falando de... amor! Já o Móveis, faz crítica, leve e jovial, fala das excentricidades da vida do homem contemporâneo, também da classe média, de maneira descontraída. Discute política, modismos, sociedade, pelo menos ao primeiro álbum, fortemente.

Quando muito, Los Hermanos tinha certas influências do Ska, mas e daí? Assim como tinha influências do Reggae. Não era Ska. Móveis é.

Mas demorei pra entender como no pensamento coletivo os dois grupos guardavam semelhanças, a ponto de serem relacionados numa mesma frase feito "Ah, eu gosto de Los Hermanos, Móveis, essas coisas..." Mesmo a imprensa não-especializada os comparava, como que de maneira burra, quando na verdade eles enxergavam inconscientemente o que poucos críticos devem ter percebido a tempo. Eu entendia a questão que os ligava, isoladamente, não de maneira evidente, associando o fato que a envolve a semelhança entre as duas bandas. A questão, é bem simples: Quem ouve Móveis hoje, ouvia Los Hermanos ontem.

E é justamente isto, afinal eles tocam para a classe média. O que é genial, comercialmente falando, considerando que a média é nossa maior classe e tem um poder aquisitivo altíssimo, pensando no corpo da massa. Mas, enfim, não é porque eles se parecem, diretamente, que a classe média os ouve. Mesmo indiretamente a relação não é tão óbvia. O que acontece é que a maneira como eles se comunicam, a linguagem, é construída a este público. No final, eles estão conversando com seus pares, claro.

Antes, quando falavamos em MPB universitária, música cabeça, cabeção, queria-se dizer que ela agradava especificamente a este público. E o resto? O resto não sacava. Porque ali se tratava de temas de fora de seu cotidiano, usando de referências de fora de sua alçada, numa linguagem ligeiramente mais rebuscada, que não comunicava a todos. O mesmo acontece com Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju. Com propostas diferentes, eles atingem um mesmo público, dotado de certa ecleticidade. No final, o Móveis se expropriou de um público orfão d´Los Hermanos, que já havia preparado a molecada para receber algo deste naipe. Talvez, algo mais interessante, inclusive. Feliz do Móveis, que não, não é igual Los Hermanos.

Cobertura: 2º Festival Contato - Sábado

Chegar à Praça do Mercado no 11 de Outubro aqui em São Carlos trazia à tona toda a expectativa cultivada nas semanas anteriores. Finalmente era hora dos shows do Festival Contato, então em sua segunda edição. Vinha a memória o espetacular festival do ano passado, que gerou os primeiros estalos que levariam a iniciativa deste blog tempos depois.

Nos primeiros passos debaixo de um calor infernal que acometia a cidade, pelas 15h30, avistava-se de cara Curumin, passando o som no que viríamos a chamar de Palco 2. Mais tarde descobriríamos a necessidade deste cuidado, quando ninguém mais o fazia, já que ele seria um dos poucos “grandes” a tocar ali, enquanto os outros estariam no Palco 1, principal, notadamente de equipamento que soava melhor.


Abertura do Festival: MALDITAS OVELHAS!

E ficamos na ansiedade aumentando, já que apenas muito mais tarde começaria a primeira apresentação em si, às 16h45 com o Malditas Ovelhas!, a banda araraquarense sempre-presente nos últimos eventos, prova de sua qualidade. Sendo os primeiros a pisarem no palco, vieram também os primeiros problemas. Na faixa de abertura, Dancing in the night, saía o áudio apenas nas caixas da esquerda, exigindo que a mesa matasse o som como um todo para o público por dois ou três segundos para normalizar a situação. Mas nada que comprometesse o show, e os moleques tiraram de letra. Seguindo seu som instrumental, Esqueleta, marcada pela incursão do soprofone na faixa conhecida apenas ao vivo, sem gravações em estúdio. Tocaram ainda Perseguida, Faca de Matar Cisne e finalizaram com Odi(o) ao viajante, com todos os integrantes da banda atacando o set de bateria juntos.



Ao término dos trinta-minutos-de-cada da primeira banda, a multidão migra para o Palco 1, sentindo o impacto real de um grande festival, com múltiplos palcos. Ali, dois palcos confrontando-se, como havia acontecido na edição passada na estação. Embora sem a mística do trem correndo ao lado, ao menos não havia limites teóricos de lotação e acabava-se atingindo público maior, atraídos pela movimentação, invadindo a cidade.


Segundos Caras: CÉREBRO ELETRÔNICO

Já no palco, enfeitado a serpentinas por todos os lados, Cérebro Eletrônico. A banda paulistana mostraria muito bom humor no meio da batida eletrônica do ausente Dudu Tsuda, com a bateria de Gustavo Souza, guitarra de Fernando Maranho e baixo com Izidoro Cobra, os dois últimos acompanhando a voz de Tatá Aeroplano nos corais que tanto marcam o som da banca. Estes mesmos sujeitos já haviam participado do 1º Festival Contato, encarnados na banda-mãe Jumbo Elektro.



Abriram com Dominó Tecnológico, com os versos rápidos de Tatá, que ainda solta um "Boa Tarde São Carlos! Pode chegar mais para frente, tem um buraco aqui". Via de regra as pessoas ainda não entendem o conceito do Festival e horas depois do horário programado, o público ainda não havia atingido seu pico.

Antes eu tivesse escolhido viver só com minha guitarra seria a próxima e divertidíssima faixa que animaria o fim de tarde com direito a pôr do Sol. “Uoh, uoh, uoh, uoh!” e canudos lança-confete disparados pelos músicos dão o toque final. Nesse mesmo clima de festa, tocam Pareço Moderno, , com Tatá posando (e tocando?) os instrumentos de brinquedo e Bem mais Bin que o Bush. Mudando um pouco a toada, trouxeram Sérgio Sampaio, entrando com um quê de Caetano, na baladinha leve.

Próxima faixa de destaque, Os Astronautas com os comentários da voz macabra do fim da faixa de estúdio servindo de abertura, seguindo em psicodelias a parte. Fecham o show com a faixa Desquite, que estará em seu próximo disco já sendo produzido, Deus e o Diabo no liquidificador. Para quem quiser conferir os que são esses caras de fenômeno originalíssimo em vivo, eles tocam no SESC de Araraquara dia 21 de Novembro.


Terceira Galera: PLANO PRÓXIMO

E novamente a Nação Bluga esteve presente em uma apresentação dos conterrâneos Plano Próximo. Com Carol Tokuyo no vocal, Gustavo Koshikumo na guitarra e sintetizador, Ian Mazzeu na guitarra, Rachel Benze no baixo e Daniel Roviriero na bateria.


Já haviam participado da primeira edição do Contato, onde conhecemos a banda em si, e ali no palco 2 fizeram uma apresentação com novos elementos, alguns rearranjos das faixas, quiçá especialmente para a ocasião. Abriram com Nada demais, de introdução mais longa e sensivelmente mais pesada que a conhecida de outros shows. Prosseguiram com a empolgante Doce Vida, seguindo-se Ou Não, Pior que porrada, Só queria conhecer, Você tem que se mexer e TPM song. Destaque para esta última, onde os trejeitos da lead singer sempre completam o som de uma maneira interessante. Finalizando a apresentação (ou)vimos Vou capotar, Nervosa, finalizando com Até quebrar a certa. O vocal esgarçado da Carol nestas últimas são definitivamente como “a cereja do bolo” do Plano Próximo.

Junto deste finzinho de show, vinham os primeiros pingos mais ameaçadores da chuva que estávamos antevendo.




Quartos Caras: GUIZADO

Correndo mais uma vez para o Palco 1, era a vez do Guizado subir aos palcos. Com o frontman Guilherme Mendonça no trompete e samples, muito bem acompanhado de quem também daria as caras no seu próprio trabalho dali a pouco, Curumin, na bateria, Rian Batista no baixo e Regis Damasceno na guitarra.



O cair da noite ali, já naquele lusco-fusco, propiciava o início de projeções visando a tal Recombinação, nas paredes do mercado, numa idéia que teria sido genial, não fosse a chuva que cairia.

Guizado veio com as faixas Colorido e Miragem, dando o tom excepcional que transcorreria sua apresentação. Os pingos que caiam ali faziam a equipe de som contratada aperceber-se que ia chover MESMO, e correndo para cobrir as caixas com grandes lonas pretas preparadas de antemão, não comprometendo o show.






Continuava com Areias, mais uma não identificada pelo pessoal aqui, de nível altamente fodástico também, obviamente. A chuva chega em definitivo, mas o som era tão foda que leva-se um bom tempo pra se percebê-la. Pulam os primeiros guarda-chuvas, enquanto a massa se espreme debaixo das tendas do Contato e do próprio toldo do Mercadão. Alguns poucos extasiados ao som, ficam de baixo da chuva, na fritação, o que inclui a equiparagem aqui inclusive! Guizado, não pára, empolgadíssimo, na mesma freqüência que sua platéia, firme e forte. Fecharia seu excerto no festival com Vermelho, Maya e Rinkisha, propriciando uma das melhores apresentações do Contato e definitivamente a que mais empolgou-nos no dia, em seu estilo único mesclando o jazz do trompete aliado a batida eletrônica.


Quinta Multidão: ZERO16 & GANJA GROOVE


Ainda em meio a muita água – poças, pingos e pisante também encharcado –retornamos ao palco “menor” para conferir a performance do Ganja Groove e Zero 16, também grupos da cidade. Ao contrário do que se parecia sugerir a apresentação teve dois blocos aparentemente. Como falta para lado de cá conhecimento sobre o Hip-hop e Rap, e mesmo do Reggae, vamos nos ater apenas as impressões deixadas.

Começou a brincadeira com o pessoal do Ganja Groove repenteando de improviso sobre o momento, de chuva, claro. Com o pique do Groove e no embalo da Ganja a galera mantinha o ânimo e se embalava ao som do grupo, alguns e algumas já nem ligando para a chuva e o vento que fazia os menos preparados tremerem.




Na seqüência entraram os (três?) caras do Zero 16, com um Rap de atitude e também qualidade, com faixas interessantes tanto pela musicalidade, em sua puxada do Funk “do bom” com rap, quanto pelas letras. Vale um destaque para as roupas dos rapazes, do mesmo naipe dos Rappers americanos.

Com a chuva apertando, inviabilizou-se o show do pessoal do Porcas Borboletas. Entretanto, eles não ficariam de fora da festa e tocariam mais além no Armazém Bar na segunda noitada programada pelo pessoal do Independência ou Marte, tocando ao lado da banda Aeromoças e Tenistas Russas.


Sextos Caras: CURUMIN



Subindo aos palcos do dia pela segunda vez, depois de brilhar junto com o Guizado, agora mostrando seu trabalho solo vinha Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin. Já que era o último a subir àquele palco, o pequeno garoto tomou a liberdade de prostrar seu set de bateria na linha de frente, junto ao baixo de Lucas Martins e o MPC de Marcelo Effori, colocando-se em foco imediato. Nada mais justo, já que seu enquanto puta baterista ainda se faz de vocalista ao mesmo tempo.

Abria seu show com Everybody loves the sunshine, de Roy Ayers, fazendo toda a ironia, já que, se é que o leitor ainda não notou, chovia. Ou ao menos garoava, vá lá. Curumin soltou “Todo mundo ama o sol aqui, não é não, São Carlos?”. Claro que ama, Curumin, claro. Na seqüência, Mal Star Card e JapaSamba emendada a Negro Drama, num dos vários pequenos medleys que nos fizeram esquecer exatamente em que momento faixas como Caixa Preta e Magrela foram tocadas.

Estranhamente, na sua meia hora deixaram rolar um intervalo com som mecânico: Nina Simone, do gosto pessoal de Curumin, cantando Ballad Of Hollis Brown de Bob Dylan. Voltaram com Mistério Stereo, Salto no vácuo com Joelhada servindo de introdução para Kyoto, como bem diz o garoto “Tô ligado que sempre rola aqui na Rádio”, enquanto o pessoal ainda encharcado extravasava mais uma vez ali. Trazendo “Agora, a música do Contato”, veio Compacto, pra depois Curumin mostrar os porquês do multi-instrumentista, indo para um cavaquinho elétrico com cara de guitarra do Guitar Hero e Marcelo tomar seu lugar na bateria para encerrar seu show, na diferente mescla de estilos, dando nova visão ao pop.


Encerramento: Jards Macalé

Finalizando a noite, ainda sobre fino chuvisco, viria o maldito (antes de mais nada, daqueles da MPB, feito Tom Zé) Jards Macalé. Escolha acertada ou não, foi um grande show saindo-se bem em meio à platéia Rock. Escrevemos com exclusividade resenha faixa a faixa para a RUA, Revista Universitária de Audiovisual. Saindo a publicação, colocaremos links aqui.

Ainda, mais fotos de nosso fotógrafo de renome internacional, podem ser vistas em nossa conta do Picasa AQUI. E já está pra sair a cobertura sobre o domingo de shows, aguardem!



Texto: Marcelo Toyama e Vanderlei Filho

Fotos: Vincent de Almeida