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Twittadas Nº2

Parte 2 - A missão! E, claro, pelo menos com estas twittadas lançamos um post por semana no mínimo, quatro por mês, 52 por ano, o que dá mais do que fizemos no último ano... Só que há que se lembrar que as pouco mais de 100 postagens não são quaisquer postagens. Seria muito fácil derramar por aqui dois ou três parágrafos sobre qualquer coisa que nos chama a atenção.

Lançamos aqui a priori resenhas e coberturas de show. De uns tempos pra cá, nada mundano, mas fruto de alguma pesquisa, com ponderações sobre tudo e todos, esperando divulgar e agregar, não apenas replicar.

E, sempre tem quem faça dessas, posts de notícias, então não precisamos nos dar a este trabalho. Tem o twitter pra isso, afinal, e lá vem nossas twittadas da semana, que poderiam ter virado cada uma delas uma postagem mixuruca, mas prefiro o bem-bolado:


PigSoul


"Rock pesado brasileiro com influências de Mike Patton, John Zorn, Dillinger Escape Plan, Koenji Hyakkei, Sleepytime Gorilla Museum, Estradasphere, Secret Chiefs 3."

Figurava assim o PigSoul no caderno de programação do 10º FEIA, o Festival do Instituto de Artes da UNICAMP, quando apresentaram lá o projeto entitulado Gesellschaftsgründung, do alemão Incorporação. As referências eram assombrosas, do Zeuhl de Yoshida Tatsuya ao  Avant-Prog do Sleepytime Gorilla Museum.

Agora, pela primeira vez em São Carlos se apresentavam em mais uma Noite Fora do Eixo no dia 10 último, no palco do DCE-UFSCar. Noitada organizada pelo Massa Coletiva, onde tocavam ao lado do Thriven e a discotecagem radiofônica do Independência ou Marte. Com uma proposta sem igual, mostravam aqui os ares da graça de seu álbum Chorume da Alma, ou Slury of the Soul, na íntegra, ao vivo, e estavamos lá para ver e viver.


Mas e então, que vem a ser a proposta do PigSoul? Nada mais nada menos que uma manifestação do RIO, o Rock In Oposition, no Brasil. E, raios, que vem a ser o RIO? Trata-se de uma proposta de, muito antes de gênero musical, um movimento, que buscava afirmar certas manifestações pela Europa e América enquanto música, a despeito da crítica da época taxá-los de outra coisa. O RIO carrega um sentimento de indignação, por excelência, uma contraposição à indústria, justamente como o Punk faria com o Rock Progressivo ainda a sua origem, mas implodindo de dentro do próprio Progressivo.

A imagem e semelhança da proposta criada para esta Noite Fora do Eixo, vinha o cartaz de divulgação. Com todas as informações da noite, nomes e símbolos, tatuadas no corpo de um jovem com a alça da blusa por cair e os seios excitados, uns diriam que é mais uma ode à repressão da figura feminina e uma exploração de sua imagem para instigar o consumo em uma sociedade machista. Talvez este seja justamente o retrato preterido inconscientemente e, pior, a interpretação tida pela grande maioria daqueles que a virem. Contudo, uma outra leitura, talvez imediata, talvez mais atenta, pudesse muito bem transpor aquele universo a proposta do PigSoul, do RIO, das Noites Fora do Eixo, do Massa Coletiva: Uma sublevação na música, no Rock, na indústria do entrenimento. E isto se dá pela exploração do sentimento libertário contido ali, quando à própria mulher é permitido este desejo e à sociedade é confrontada com a imagem proibida deste, denunciando-a assim como ao marasmo na música das massas e a exploração desta música e por consequência de seu público pela mídia e grandes corporações.

Enquanto movimento iniciado por meia-dúzia de nomes, havia uma espécie de plataforma política a que se fazer adesão para verdadeiramente ser aceito dentro do RIO: A excelência musical, o comprometimento em desbancar a indústria musical e o comprometimento social com o Rock. Aqui, mais uma vez, o PigSoul se mostra verdadeiro, com seus integrantes esbanjando domínio técnico sobre seus instrumentos, músicos da academia que são, e dotados de expressividade assombrosa; Pisavam por São Carlos numa Noite Fora do Eixo, proposta justamente alternativa a indústria musical convencional, que passa a ter aqui certa raiz comum com o RIO; E, por último, se fazer RIO  no Brasil não for um comprometimento sem tamanho, não sei que é.

Fazer RIO torna-se relativamente mais fácil, claro, quando os membros do PigSoul estão em outros varios projetos, tomando por exemplo o próprio Thriven que tem membros comuns ao PorcoAlma. Um projeto como Thriven é indiscutivelmente mais palatável à grande massa, tanto que ali abria a noite e segurava o clima madrugada adentro deixando a excelência do PigSoul para o final, aumentando a pressão à cabeça do público no negrume cozido daquela terça. Thriven trata-se de uma proposta bem mais rentável, há que se dizer. Assim, parece mesmo que o RIO não sai desta esfera, permanece na sua pura essência, discutindo a música para poucos. Mas seria para poucos de fato?

Mesmo naquela fria noite o famigerado palco do DCE-UFSCar, palquinho como dizem os conhecidos do lugar onde vem se desarolando as Noites Fora do Eixo em São Carlos costumeiramente, estava cheio. Há que se considerar que era a primeira semana de aula ali na Universidade, garantia de bom público, mas é inegável que o formato das Noites Fora do Eixo naquele espaço se consolida bem sucedido, atraindo do amante da música ao boemio eterno. Permanecia ainda, já às duas da manhã o público, curioso por conhecer o extravagante projeto conceitual. Fato é que o bizarro, ápice pós-moderno, está mais mais em voga do que nunca.

E o álbum Chorume da Alma, take único de mais de trinta minutos baixou em São Carlos nos devaneios de Gustavo Boni (baixo, de seis cordas, também da Thriven ), Daniel Rossi "Brita" (guitarra de sete, SETE, cordas e trombone), Rafael Montorfano, (teclado, sintetizador e gritos) e Luis André "Gigante" (mais de duas horas em cima da bateria com a Thriven e o PigSoul) na maior exatidão que a frita complexidade e o capricho que o espaço ao improviso permitiam, executado justamente nos seus pouco mais de trinta minutos. Saindo dali uns impressionados, em transe, outros decepcionados, uns bestificados e outros mesmo indiferentes, desentendidos, fato é que se cumpria um dos papéis maiores que aponta o Rock In Oposition: Chocar.

Iniciativa ímpar no Brasil, já que, se tanto, aproxima-se do RIO o Satanique Samba Trio, o mais brasileiro que o Rock In Opposition poderia ser, propiciaram uma apresentação como a muito não se vê por estas terras, se é que seria possível, de tantas outras investidas. Também, pudera! O show é realmente único, como que intransponível à palavra.

Só que, mais, como se o próprio RIO já não fosse por vezes uma grande e elaborada pilhéria, o PigSoul não se bastava em instigar com o Chorume. Mostrariam uma piada dentro da piada com algumas "musiquinhas" de um novo projeto, chamado Tupinikings of Metal, absurda fábula em que o Deus do Metal joga um raio numa tribo indígena para fazer nascer ali um Deus do Metal brasileiro. Carregada de clichês, a insana brincadeira chega a ser sofisticada, deitando para uma das últimas não-pedidas da noite um Drone safado, chamado Comendo a Própria Mãe, a la Sunn O))). Dar as caras deste jeito depois da profusão sonora que havia sido o Chorume da Alma só fazia jus a proposta como um todo, lembrando os absurdos de outra referência lá, Mike Patton, voz da Ópera ao Grindcore. Restaria saber se eles levam a cabo a alcunha e fazem a dita produção deste novo álbum. Uma apresentação de RIO no Brasil, que dirá, em São Carlos, já era inusitadíssimo. Mas, DRONE?!?


Acontece de o RIO não figurar exatamente um estilo musical, uma vez que centrava-se em torno de uma não-causa. E assim pode-se apontar o PigSoul, a soma descontrolada e ao mesmo tempo precisamente mensurada de elementos, nunca desvelando-se, sempre alheio ao público, a massa.

Mas estes sujeitos do PigSoul não eram de todo desconhecidos afinal. Ao mesmo tempo em que tinham membros comuns na Thriven, o Metalcore que se apresentava antes naquela mesma noite, o PigSoul divide pares com o Eletrogroove, de Campinas, a quem já tinhamos resenhado aqui uma apresentação, na ocasião da 4ª Semana do MACACO, em 2008. Outra proposta instigante, bebendo do Jazz e do Rock, do Punk e do Progressivo, do Afrobeat e do Eletro.

Da mesma maneira nossos sujeitos usam destes elementos apontando para outras vertentes, carregando todas as dualidades, de sentimentos e cores, que se manifestam na sua música em um balaio só. O álbum Chorume da Alma estava disponível, completinho, até uns dias atrás para audição no SoundCloud, plataforma que, vale comentar sempre, é em muito superior ao MySpace para a divulgação de bandas Infelizmente resta apenas um excerto lá, mas há o Last.fm  da banda conta com a versão em um track só do álbum, para download gratuito inclusive!

Muito da sonoridade apresentada em o Chorume da Alma aparenta também ser um trabalho feito pelo próprio prazer e satisfação dos autores, fazendo ali uma música preocupada, carregada das angústias destes. Se quem sabe esta não era a pretensão destes para com o público ouvinte, é o que se passa a eles, havendo identificação. Da mesma maneira que há transgressão, como também o é a excitação dos seios de nossa menina no cartaz.




Mais fotos no nosso Picasa!



Resenha: Aeromoças e Tenistas Russas, meninos e crescidos.


Já fazia um bom tempo que se precisava voltar a falar aqui destes camaradas. Conheci a Aeromoças e Tenistas Russas ainda no começo de suas apresentações, em 2008. Na época, já me impressionaram bastante, enquanto explorávamos novas bandas do meio dito independente de São Carlos. Hoje, três anos mais, muito mudados, nada mais justo que abordá-los novamente. E nenhum momento seria mais oportuno para fazê-lo que não na própria São Carlos quando atravessam uma turnê por dois estados, com onze shows, ao lado de uma das mais importantes bandas do cenário no país.

Quando em 2008 resenhei pela primeira vez a banda (a resenha pode ser vista aqui), eles já vinham de alguns bons shows em São Carlos, tendo passado pelos palcos do DCE-UFSCar, do CAASO e pela festa de lançamento do Mozilla Firefox 3.0, no Armazém Bar. Nesta época, tinham um repertório bastante enxuto, mas bem redondinho, com composições autorais e mesmo umas instrumentais, entremeadas por versões de músicas como Um Lugar do Caralho de Jupiter Apple e Fuscão Preto de Beto Lee até lances como Superstition e Play That Funky Music White Boy, com estas duas últimas tocadas sem vocais, só no sax. Enganavam os desavisados ao mostrar sujeitos barbados e não as comissárias das asas da Panair servindo coca-cola e muito menos o serviço no saque de uma Anna Kournikova.


Desta vez, já tendo carimbado o passaporte por Uberlândia e Uberaba, Franca e Araraquara, na noite de 23 de Março fariam mais um lance no palco do DCE-UFSCar, universidade onde surgiu a banda, o quinto show da turnê. Quem abria aquela noite eram The Baggios, duo sergipano de guitarra e bateria numa linha de blues rock a la White Stripes e Black Keys. Quem vinha na sequência eram os sujeitos do Porcas Borboletas (e a resenha desse show está aqui), com seu pós-punk oitentista bebedor dos paulistanos de vanguarda e dos clubes de esquina, já com mais de dez anos de estrada. Mas quem fechava mesmo esta Noite Fora do Eixo eram os Aeromoças e Tenistas Russas. Se para muitos quem encerra a noite é a banda principal, aqui quem fazia este papel então eram eles, donos da casa, mantendo o público vivo e ansioso até o fim.

E traziam uma tenista, não a Kournikova, mas uma Kirilenko. E faziam uns e outros voar, senão nas poltronas da primeira classe, em devaneios oníricos sem mesmo fechar os olhos.

Naquela primeira resenha sobre a AeTR, o importante era entender as influências que a banda tinha enquanto grupo de estudantes do curso superior de Imagem e Som da UFSCar. Tanto as referências musicais, das mais distintas pela própria origem de seus integrantes, quanto a abordagem diferente sobre cinema, propaganda, plástica, enfim, arte, dada pelo choque universitário, permeavam suas composições, bastante passionais neste sentido. Hoje, contudo, assomam-se a estes outros fatores, como ter botado os pés em palcos de vários cantos, dos bares mais infernais às grandes armações de festivais país afora, apresentando-se a públicos muito diferentes, desde condições de equipamento castigado e técnico de som ruins até a acústica de um teatro, tudo lado a lado com bandas das mais distintas. Assimiladas estas experiências, aliadas ao próprio tempo juntos, que lhes dá mais chances para conhecer um ao outro seja no dia-a-dia daqueles que dividem sala de aula e casa, seja na composição, no ensaio, no estúdio, no palco e nos bastidores, há um amadurecimento notável.

Hoje, saem daquela linha inicial de músicas mais atiradas, cruas, para um novo material bem trabalhado, com mais personalidade ainda, sem contudo perder energia. As muitas influências permanecem, mas convergem melhor dentro de uma mesma música, sem excessos.

No conjunto de suas composições mais recentes ainda exploram vários sentimentos, ora mais etéreos e cíclicos, como em Solarística, ora mais explosivos, como em Kirilenko. Em conversas com o grupo revelou-se muito do seu método composicional, feito em cima de jams, em que um trás um riff bacana, outro uma melodia e desta experimentação tem-se o refino do material que chega até nós. Daí as composições tão diversas, fazendo um show ir da melancolia a rebeldia em poucos minutos.


Claro, há que se lembrar que há um fio que liga estes elementos todos, criando uma identidade bastante única para o grupo. Este elo passa a ser, em suas últimas composições, a acuidade com que passam a tratar seu material mais bem acabado ao mesmo tempo em que exploram um lado pop, grande pegada de suas músicas desde um primeiro momento. Atacam com assinaturas ritmicas que marcavam o progressivo, o que é bastante inusitado ao som proposto, porém, em composições por vezes espasmódicas, mais curtas mesmo que o comum do Pop Rock. Estas composições curtas vem possivelmente como característica do trabalho feito em cima de jams, explorando certos temas, como no Jazz, a exaustão, sem as deixar pobres, muito menos desgastados. Ao final, usam da música enquanto linguagem máxima para expressar seus sentimentos ao mundo, instrumento natural. O fazem buscando certos moldes em diferentes meios, fazendo sua sonoridade rememorar a várias outras e ao mesmo tempo reverberar originalidade. E estes são os aspectos que, como outros nomes, os fazem sobressair-se a um mundo onde surgem bandas e mais bandas, facilitadas pela disseminação e democratização da tecnologia.

Em suas peças últimas este amadurecimento de suas ferramentas de composição é notável. O reflexo deste trabalho é imediato no contágio do público que passa a também cantarolar mesmo suas instrumentais, tão forte são as linhas impostas ali. Tal empolgação por parte da platéia é conseguida por poucas instrumentais. Se chamá-los de Pop Rock seria leviano apesar deste poder por conta daquelas características pouco usuais, nada mais próximo do que apontá-los como Pop Rock Progressivo.

Mas não só pelo seu trabalho direto enquanto música há esta aproximação forte com o público. Também há um trabalho forte na formação deste, através de contatos e deixando suor na estrada.

Na noite que tomamos para ilustrá-los, Aeromoças já com seus três anos fica lado a lado com gente feito o Porcas, com bem mais tempo de estrada, em turnê por onze cidades. Ao longo da turnê, ora abriam, ora fechavam pro Porcas, mas em São Carlos precisavam fechar, porque fizeram um show épico, com um setlist acertadíssimo feito para a turnê e participações especiais com direito a jam session ao final, mostrando em casa, aos amigos, onde eles chegaram. Era antes de tudo uma pequena prova de vitória. Isto tudo por um processo longo, sempre galgado, de penetração e conquista. Me lembro de uma primeira experiência longe de casa, quando iam a Brasília apresentar-se pela primeira vez num Festival, apesar de sempre estar circulando pela região de São Carlos, Araraquara, Ribeirão e afins, pra saber depois que acabou não acontecendo. Depois disso, passaram pela 4ª Semana do MACACO apresentando-se com o que viria a ser o Projeto Acusmática, fazendo trilha sonora ao vivo para o curta Regen numa parceria com a RUA. Passariam então pelo Festival Contato em mais de uma ocasião, Festival de MPB da UNESP de Ilha Solteira até o Festival Macondo Circus em Santa Maria no Rio Grande do Sil, no fim de 2009. Já entrando este ano, fariam uma empreitada forte, ao singrar o estado de São Paulo tocando em oito cidades pelo Grito Rock. Esta, assim como a turnê que acabam de atravessar, é uma possibilidade dada pela articulação forte existente hoje entre os diversos coletivos de música independente do Circuito Fora do Eixo, como comentávamos outro dia. Esta inserção neste contexto se deu muito por este esforço do grupo e proatividade, parando hoje dentro de um dos que mais cresce hoje, o Massa Coletiva, em São Carlos, figurando mesmo no portifólio de bandas que o coletivo porta, que passa a alavancar isto exponencialmente. Hoje não mais presos a São Carlos, encaram-se como profissionais, saindo às portas do mundo.

Dito isto, entremos aos pontos mais imediatos do ao vivo, fazendo o que começamos aqui fazendo, trazendo as impressões mais fiéis dos shows, relatos vivos. Lá já a alta hora como sempre estavam os sujeitos que entoam às Aeromoças e Tenistas Russas. Thiago "Hardie" Gonçalves, alternando-se em guitarra e sax, com algumas incursões aos vocais, Juliano Parreira ao baixo e alguns backing vocals, Luiz Gustavo "Hoolis" Palma nos teclados e mais backings, e Nilo Gomes na bateria. Quando em 2008 seu show tinha lá sua dúzia de músicas, apenas metade delas era própria. Agora, apresentam todas sendo suas, sinal do apreço que passam a ter por sua capacidade depois destes caminhos todos trilhados.

Abriam esta apresentação com um excerto instrumental foderoso, mostrando para aqueles que quem sabe ainda não conhecessem seu nome que não se tratava de um grupo qualquer, quando fazem mesmo o rock dispensando a guitarra em alguns momentos para inserir a sonoridade do sax na faixa Jacques Villeneuve Experience. Combinação bombástica, faz todos já de cara balançarem. Aos que conheciam, era já uma melodia impregnada na cabeça, como muitas outras, por aquele forte molde pop a que se apegam. Continuando no instrumental, mostravam uma de suas últimas composições, estreiada a nossos ouvidos no Festival Contato de 2008, Smonkey Skulls, com Hardie já com guitarra a mão. Está é mais um daqueles exemplos em que exploram vários recortes dos mais divertidos agregando-os em torno de uma linha.

Sagüís, terceira da noite, seria mais uma instrumental, não fosse o convite para a participação do MC J.Gheto fazendo versos de improviso acompanhando uma das mais frenéticas faixas da banda, das primeiras bacanudas compostas. Cantava lá ele "Vem com nóis quem puder, escuta nóis quem quiser" dando vazão aos sentimentos presos na rítmica.

Depois desta era hora de mergulhar no tempo de suas primeiras composições. Aqui num dos poucos momentos do show exploram o lirismo de letras a suas músicas, com impressões mais imediatas de suas intenções, justamente naquele primeiro ciclo de seus trabalhos. Armavam o Bang Bang, com uma mais simples, mas de letra mais esquizofrênica de todas, feito o ícone saído do cinema novo que lhe dá nome. Emendavam Samba, letra das mais icônicas, de refrões fáceis mais verdadeiros que caem a boca do povo, que os entoa a todo show, com espaço até para cantarolar de melodia dissociado do instrumental, feito o que seria muito da própria estrutura do samba que lhe dá nome.

Este excerto de letras cotidianas e irreverentes dos seus primeiros trabalhos ainda marcam muito seu repertório, deixando margem a apontar a fase como transição. Se existe um limar de material, deixando de lado composições como Ensolaradas e Desfibrila, que há muito não vejo ao vivo, ouso dizer, contudo, que isto é uma aceitação deste material, valorizar de um trabalho antigo que caiu ao gosto popular, em especial no tocante a Samba. Daí é que surge o termo, parafraseando Fred Gomes, que prova que eles fazem "música instrumental cantada". E mesmo estas músicas mudaram muito desde a época dos primeiros shows. Ganharam novos arranjos dando mais corpo a algumas, mais ritmo a outras, tornando tudo mais interessante.

Outro momento para celebrar com convidados e amigos novos surge Sex Sugestion, no que chamaram de Motel Version. Composição das mais recentes, já com uns rearranjos provavelmente feitos nessas incursões estradeiras do Grito Rock e da turnê Fora do Eixo, apontando ainda mais uma das várias participações da noite, com o Moita, do Porcas Borboletas, empunhando a guitarra enquanto Hardie fazia as vezes novamente ao sax dourado-esmalte-preto.

Já com a guitarra de volta às mãos de Hardie, traz-se mais uma de suas composições com letra, Mirella, também uma daquelas seis primeiras autorais com que se apresentaram em 2008, falando das crises do homem frente à uma mulher, temática por muito abordada na história do Rock. Na sequência, com Instrumental 1456, a idéia de música instrumental cantada é reforçada, quando no próprio título da faixa carrega-se o "instrumental" e ao mesmo tempo trata-se de uma música com letra e tudo. Isto, muito porque as vozes são usadas dentro da melodia traduzida então por baixo e guitarra, servindo também de instrumento.


Encaminhando-se para o excerto final, encerrariam sua apresentação mostrando todo seu fulgor justamente com minhas três composições preferidas. E isto muito porque são as mais bem lapidadas, resultado final de seus processos. Com Insomne, davam espaço para Jack, percussionista do Porcas, ainda com seu set de percussão bizarríssimo montado no palco, munido de latas de tinta, pedaços de metal e canos diversos, como muito visto em brincadeiras com outra banda instrumental conhecida de todos. Essa é a maturidade de que falamos. Esta faixa, se fossemos relacionar suas músicas e a metragem e cunho dos filmes, seria um curta dos mais experimentais hoje. Explora aquelas temáticas e evolui para um final arrebatador, com elementos do avant-garde.

Seguiram com Solarística, que facilmente poderia ser apontada como melhor faixa já composta pela banda. Texturas várias, melodias escolhidas a dedo, cercadas em ambiente bizarro, quase hostil, ao mesmo tempo que hipnotizante. Justamente, uma das mais aclamadas pelo público. Isso, porque dá pra sentir que é das melhores, quando põe todos a captar e emanar energias invisíveis e inconscientes, de maneira inebriante.

Fecharam tudo com uma das mais recentes músicas, Kirilenko. Levada já a estúdio, sua gravação teve todo o processo registrado aqui, com tudo feito no home studio do Massa Coletiva. Esta, vem para provar a miríade de sentimentos explorados pelos barbados do AeTR. Depois de buscar certo desespero invocando a insônia, entrar em sonhos de fato na consciência, um despertar de energia. Agitada, finalmente fazendo alusão com uma tenista, Maria Kirilenko, apontando ao mesmo tempo a beleza e a energia vibrante. Neste excerto final, se algo pode ligar as três, todas instrumentais, são as diferentes energias que se sente uma-a-uma.
Mas fecharam tudo mesmo? Depois até de saírem do palco, os pedidos foram muitos, não podendo deixar de rolar mais uma. Não um repeteco, mas um encore. Escolheram para tanto rememorar a época em que tocavam versões de músicas conhecidas, com a sua versão de Play The Funky Music White Boy. Claro, outra intenção escondida aí era poder trazer ao palco vários convidados e fazer uma jam. Jovem Palerosi em intervenções de scratchy e samples, incrementando-se depois com mais percussões do Jack. Sem parar, contudo, saíram daquele Funk para entrar na verdadeira sessão de improviso, chamando Gustavo Koshikumo, que vinha acompanhando as duas bandas pela turnê garantindo o bom som saindo dos PA, para se apossar da Tajiminha verde e cereja de Hardie enquanto ele desfilava os dedos pelo sax. Caíram nisso até no Reggae depois de quinze minutos de despudor final, com Jack chamando todos com um "Vamô Saravá!".

Ainda passariam depois de São Carlos por Campinas, Bauru, Ribeirão Preto, São Caetano e Bragança. Toda esta turnê é documentada no blog Fora do Eixo Tour. Antes de vir ao palco na nossa terça-feira daqui, já tinham aportado por São Carlos na segunda-feira, batendo ponto no programa Independência ou Marte na Rádio UFSCar junto do Porcas, falando um pouco sobre a turnê e rolando uma jam entre as duas bandas. Tudo pode ser conferido na íntegra no player abaixo.



De últimas considerações, se lá em nossa primeira resenha sobre eles se dizia que iriamos acompanhar de perto a evolução da banda, que mal começava e já vinha "com um repertório bem pensado, com material corajoso, regado a inusitados atrativos", pois bem, estivemos presentes em vários de seus momentos e aqui está sua virada, talvez um auge, que esperamos ser um primeiro. Com um público já consolidado, resta saber como irão mante-lo sem perder toda esta identidade já bem construída. Há que se lembrar que o público é mutante e apesar dele ter o nome Aeromoças e Tenistas Russas a ponta da língua, novas levas de nomes vem a pauta a toda hora, muitos deles com dinâmicas semelhantes a este grupo. Mais que isto, como estes sujeitos irão explorar esta identidade, sem deixar suas composições se renderem às demandas imediatas do público ou seu modo de composição estagnar, é o mais inquietante. Há que se conduzir tais mudanças com sensatez.


Setlist da Turnê
01. Jacques Villeneuve Experience; 02. Smonkey Skulls; 03. Sagüís; 04. Bang Bang; 05. Samba; 06. Sex Sugestion (Motel Version); 07. Mirella; 08. Instrumental 1456; 09. Insomne; 10. Solarística; 11. Kirilenko;
BIS
01. Play That Funky Music (emendando jam de reggaes e tudo!)


E mais fotos da passagem da turnê em São Carlos podem ser vistas no nosso Picasa!