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A Nova Música no Grito Rock São Carlos 2011

Novamente comentando mais um Grito Rock São Carlos, que vem para começar o ano em bom tom. Trazendo, entre outras coisas, bandas interessantíssimas, já em sua quarta edição na cidade, deixa o carnaval para acontecer no fim de março. Mas, de mudanças importantes mesmo se vê surpresas no perfil das bandas que se apresentariam na Estação Cultura.



Explico. Nos primeiros anos o enfoque era em grupos dentro de um apelo rocker bem mais clássico, por assim dizer. Abusava-se dos estilos mais consagrados, bem aceitos pelo público. Chegou-se mesmo a trazer bandas com parco material autoral, já que na verdade no dia-a-dia se fundamentavam em covers. Contudo, nas últimas edições a preocupação com originalidade e novas tendências se fundamentou, culminando agora em 2011. Obviamente, se mudanças para melhor ou pior, isso vai de pessoa para pessoa. O fato é que inegavelmente há novas perspectivas que, a meu ver, são para melhor.

Assim, via-se na programação deste ano canção, experimentalismos, música instrumental (até fugia-se do Rock, olhando bem). Não necessariamente artistas de vanguarda, mas nem por isso deixam de ser grupos originais, procurando uma identidade e sem medo de se deixar influenciar e muito menos de inovar. É claro que existem diversos nomes seguindo rumos semelhantes àqueles desta edição. Contudo, o importante é que não se pode dizer que é uma música que cultua um Rock sem nada a acrescentar, estagnada no que foi criado no passado.

     


Claro, generalizo as bandas que se apresentaram no Grito Rock São Carlos 2011, mas falo de algumas pontualmente, e destas intuo a mudança de postura no festival. Neste ano uma forte linha da programação estava embasada nos novos nomes da canção popular brasileira. E aqui penso em bandas como Trupe Chá de Boldo, Do Amor e mesmo Seychelles. E quando digo que houve uma preocupação em trazer mais experimentalismo e musica instrumental, temos nomes como Aos Maníacos Símeis e Bexigão de Pedra, representando a São Carlos instrumental,  além da Huey e Atmosfera Lunar, pela primeira vez na cidade.

E vamos então postar em um nome do primeiro time, o da canção, que me chama a atenção, apresentando-o aqui: Loungetude46.




E começo dizendo que Loungetude46 não vem de Campinas, conforme nos dizia a divulgação do Grito Rock São Carlos. E isso não é erro sem importância, pois a banda tem muita influência da sua cidade  natal, São Paulo. E, aos desavisados, eles declaram isso justamente no nome, já que a capital paulista fica nos 46º  e Longitude. Entretanto, a influência vai muito além disso: o urbano é tema freqüente nas letras, altamente críticas, e a mistura de tantos ritmos – Samba, Funk, Jazz, Salsa – acaba refletindo a heterogeneidade que é a megalópole. Em suma, Loungetude 46 é uma autêntica filha de São Paulo.

 


E quem vai pensando que isso só se aplica na sonoridade musical está enganado. Há poesia, que se funde à música, com suas letras meio cantadas e meio declamadas. Há performance, presente em tantos momentos do show, como em Galinhas no Outono, com os integrantes encarnando bicos e tudo. E, não se pode deixar de citar, há trabalhos gráficos, com a belíssima página online do grupo e seu segundo álbum, livro magnífico acompanhando o CD que é possível ver abaixo. Aliás, em todo esse encontro de artes não dá pra deixar de lembrar que a banda é paulistana. Também, difícil não encontrar uma relação com uma cidade que tem de tudo.

Teria muito para dizer da banda, do seu instrumental impecável, da voz potente e de belíssimo timbre da vocalista Mariana Degani, da presença de palco, da qualidade das letras. Mas acho que já deu para ter uma idéia, não? Pena foi um público maior ter perdido a oportunidade de chegar a ver uma proposta como essa nos palcos. É o futebol de domingo deixando suas vítimas.


    

Setlist Loungetude46
01.Extra; 02.Brasileira; 03.Café da Tarde; 04.A canção que vai mudar... ; 05.Petróleo; 06.Galinhas no Outono; 07.Filosofia; 08.Lua e Pedro; 09.Eclipse;


Mais fotos do Grito Rock São Carlos 2011 podem ser vistas no nosso Picasa!


Fotos: Danilo Eric e Diogo Martino. Manoela Wright (Loungetude46, primeira foto).


Grito Rock São Carlos 2011

Pelo quarto ano consecutivo o Grito Rock dá as caras em São Carlos. Nas edições anteriores o evento tomava lugar no Carnaval, mas desta vez não será alternativa apenas para quem foge da folia, acontecendo no próximo fim-de-semana. Com esta mudança para o final do mês de Março, atingem sem grandes exceções todo o público da cidade e mesmo os universtários, que voltam do período de férias.


Uma das grandes assinaturas do Grito Rock, particularmente em São Carlos, está em valorizar a produção independente da própria cidade ao mesmo tempo em que trás bandas de fora que nunca havia se apresentado por aqui. Reafirmando este conceito nesta edição de 2011, sobem ao palco as são-carlenses Aos Maníacos Símeis, Bexigão de Pedra e Gagged. Entre as demais bandas convidadas a maioria passa pela primeira vez em São Carlos, a exceção do Astronauta Pinguim, moogman que já passou por aqui ao 2º Festival Contato

Ressalta-se como linhas fortes na programação deste ano o novo instrumental brasileiro e seu imediato oposto, nossa canção popular que vem bebendo juventude nos últimos anos. Do lado sem vozes, assomam-se Huey e Atmosfera Lunar as já citadas Aos Maníacos Símeis e Begixão de Pedra, que entram para o leque de bandas instrumentais de São Carlos. Já defendendo a poesia brasileira, despertam interesse a Longetude46 e a Trupe Chá de Boldo, além de figuras como Do Amor e Seychelles

O Grito Rock São Carlos 2011 toma lugar mais uma vez na paradisíaca Estação Cultura, por onde já havia passado em 2010. A novidade este ano está na festas da noite, que vão para o Metrópollis, bar com menos de um ano na cidade mas que oferece um espaço privilegiado para apresentações musicais.

Além da programação musical, o Grito Rock São Carlos contará com as tradicionais intervenções nos intervalos das bandas, com grupos de Teatro e Dança da região, a III Feira de Cultura e Economia Solidária, a II Mostra de Vídeos Clarão e um debate com tema "Músicos e Casas Noturnas", atividade pop-up do Festival Contato de 2011.


GRITO ROCK SÃO CARLOS 2011

25 de Março - Sexta-feira
Horário: 23h
Atmosfera Lunar (Franca – SP) 
Huey (São Paulo – SP) 
Local: Metropollis Dining Club
Entrada: R$ 7,00


26 de Março - Sábado
Horário: 16h
Aos Maníacos Símeis (São Carlos – SP)
Chavala Talhada (Ribeirão Preto – SP)
Mugo (Goiânia – GO) 
Trupe Chá de Boldo (São Paulo – SP)
Do Amor (Rio de Janeiro – RJ) 
Local: Estação Cultura
Entrada Gratuita

Horário: 23h
Bexigão de Pedra (São Carlos – SP) 
Astronauta Pinguim (São Paulo – SP) 
Local: Metropollis Dining Club
Entrada: R$ 7,00


27 de Março - Domingo
Horário: 16h
Canne's Foot (Serrana – SP) 
Gagged (São Carlos – SP)
Loungetude46 (São Paulo – SP) 
Seychelles (São Paulo – SP) 
Los Perrosky (Santiago – Chile) 
Local: Estação Cultura
Entrada Gratuita

Pré-Grito Rock São Carlos: Apanhador Só e Maglore

Na próxima quinta-feira, dia 17, São Carlos começa a se preparar para mais uma edição do Grito Rock, festival integrado que perpasará todos os estados do país e outros oito países, entre o Mercosul e a América Central, atingindo 132 cidades. 


Com São Carlos indo para sua quarta edição, organizado pelo Massa Coletiva, o evento acontecerá de 25 à 27 de Março na tradicional Estação Cultura , com bandas selecionadas pelo portal Toque no Brasil. No dia 17 temos uma festa pré-Grito Rock, no bar parceiro do evento, o Metrópollis Dining Club. Casa recente em São Carlos, fará uma de suas primeiras incursões na música independente. 

Se apresentará na ocasião o Apanhador Só, grupo do Rio Grande do Sul que já bateu em terras são-carlenses no ano passado, durante o 4º Festival Contato. Vem com um show fundamentado nas vertentes mais últimas do pop e cheio de percussões inusitadas, embasado em seu álbum homônimo lançado no ano passado. É possível fazer o download do álbum na página oficial da banda. 

Junto dos gaúchos, se apresentará o Maglore, banda de Salvador que também percorre esta linha de pop, mas que trabalha com alguns elementos mais tropicais. Também trazem um álbum cheio na bagagem. Lançado em 2010, seu álbum Veroz está disponível para baixar aqui

Acompanha a noite ainda a discotegem radiofônica do Independência ou Marte, anfitrião das boas festas na cidade, e as projeções de VJ Ocari.



PRÉ-GRITO ROCK SÃO CARLOS 
Apanhador Só [RS]
Maglore [BA]
Discotecagem Radiofônica Independência ou Marte
VJ Ocari
Data: 17 de Fevereiro, Quinta-feira

Horário: 22h
Local: Metrópollis Dining Club, Rua Dona Alexandrina, 878, Centro, São Carlos, SP.
Entrada: R$6,00

Resenha: Nevilton é destaque no Grito Rock 2010 na região!


Chega mais uma vez à Região Central do Estado de São Paulo o maior festival integrado da América Latina, o Grito Rock. O evento é uma realização dos circuitos Fora do Eixo e Toque no Brasil, redes de produção cultural que fomentam a circulação de músicos pelo Brasil e países vizinhos. A cidade de São Carlos, através do Massa Coletiva, foi contemplada este ano pela terceira vez com o festival, contando com dois dias de programação. Já a cidade de Araraquara, graças a organização do coletivo de artistas e produtores culturais Colméia Cultural, se integrou ao festival pela primeira vez. Cabe então nos determos um pouco nesse inédito e carnavalesco Grito Rock 2010 Araraquara.

Não houve desculpas para marcar toca no domingo de carnaval. A Kruppa: Arquitetura, Arte e Cultura, em forma de parceria, com boa cerveja e no ponto, abrigou em seu belo espaço a programação recheada mesmo sendo de apenas um dia. A Colméia Cultural, além de receber as bandas, ofereceu ao público uma instalação artística, feira de troca e intervenções de teatro e circo que também rolaram em São Carlos, com destaque para a peça Trato Duvidoso, muito bem escrita e representada por Dado Marcondes e Guito Brito.

Foram então cinco bandas. Aeromoças e Tenistas Russas (São Carlos/SP) e Almighty Devildogs (Bauru/SP), precedidos respectivamente por Ruído Fino (Araraquara/SP) e Dom Amaro (Ribeirão Preto/SP), fizeram excelentes apresentações. O agressivo Almighty Devildogs traz um frenético e atordoante surf punk ligado no modo “foda-se”, mas às vezes com guitarras viajantes e toques eletrônicos espaciais de um integrante mascarado outrora abduzido pelos alienígenas paranaenses do Trilöbit. Já a banda são carlense realmente impressionou. Um conciso caldeirão jazz fusion sob o primoroso saxofone de Thiago “Hard” nas instrumentais e progressivas faixas Insomne e Jacques Villeneuve Experience. A mistura de AeTR não se contenta com pouco, suas receitas variadas trazem como ingredientes um autêntico e próprio rock'n'roll e um pouco de blues, mas principalmente o funk e o soul, assim como o nosso samba também, sem fazer miscelânea, numa confluência coerente de sonoridades. Saguis expressa muito bem esse cardápio, a composição instrumental acid jazz com samba agita o público já familiarizado com seu tema marcante. Smonkey Skulls também agita e ainda traz uma pitada de surf para completar o tempero. Com Samba!, o Aeromoças, além de tudo, mostra que sabe encaixar uma boa letra. Foi a apresentação de mais alto nível.

No entanto contávamos com a presença do grande destaque do Grito Rock na região. Trata-se do Nevilton, banda recente que colocou no mapa do circuito a cidade de Umuarama, no Paraná. Lançaram esse ano seu primeiro EP oficial intitulado Pressuposto, produto de um projeto estético lapidado em apenas 3 anos de estrada. Nevilton é promessa de sucesso em 2010 e foi apontado pelo sítio Scream & Yell como o segundo melhor show de 2009 atrás apenas do Móveis Coloniais de Acaju, que preenche o palco com nove músicos e metais de sopro diversos, enquanto nossos amigos conquistaram a classificação com um show de apenas três músicos. Nevilton de Alencar, de 23 anos, membro que dá nome ao grupo, e Tiago “Lobão” voltaram ao Brasil após uma experiência de alguns meses em Los Angeles, nos Estados Unidos, e trouxeram na bagagem um primor a mais para vestir de um refinado pop as letras em português, mantendo um certo caráter brasileiro. Nesse contexto, foram convidados para encerrar as apresentações na Estação Cultura de São Carlos na terça-feira e o festival em Araraquara no domingo.

No aconchegante espaço do Kruppa, o vocalista e guitarrista Nevilton, ou apenas Ton, e Lobão, com seu baixo, não pouparam energia. Acompanhados pelo novo baterista Eder Chapolla, os dois a frente se lançam em respeitáveis saltos ensaiados mostrando que não é necessário um grande palco para um bom show. E isso eles realmente sabem fazer, tudo bem encaixado, vocais na medida, presença de palco, interação com o público, limpeza e primor na execução dos instrumentos. Somente o forte calor da noite de carnaval da Morada do Sol foi capaz de impedir que a totalidade dos presentes dançassem com a empolgante e envolvente apresentação. Calor exaustivo que não afetou certos integrantes do Colméia Cultural responsáveis por uma saltitante performance cuja inspiração nos movimentos dos sapos pareceu para Ton a melhor explicação. O Colméia mostra que faz e se diverte, e Nevilton topa a brincadeira. Os demais, que haviam se contentado apenas em cantar a pegajosa letra recém aprendida de A Máscara, contagiaram-se pela animação conduzida pelas faixas Vitorioso Adormecido, O Morno e Pressuposto, presentes no EP.

Na terça-feira pudemos ver os jovens de Umuarama no palco novamente. O consolidado Grito Rock são carlense proporcionou uma boa estrutura de palco, som e iluminação, além do histórico e peculiar cenário da gari da estação ferroviária de São Carlos com trens em movimento e arrebatadores apitos. Houve mostra de vídeo, intervenções artísticas e discotecagem, além de festas no bar Armazém com Juca Culatra e Power Trio (Belém/PA) e mais do que há de bom. Completando a sequência de mais de dez bandas em dois dia na estação, dentre elas Eu Serei a Hiena (São Paulo/SP) e Os Rélpis (Araraquara/SP), sobe ao palco a banda Nevilton por volta das 21h30. O público era diverso e estava tímido, mas parecia que logo a apresentação agradaria a todos que aos poucos se aproximavam a convite do simpático vocalista. Já na segunda música, Bolo Espacial, transparece o detalhamento da produção do espetáculo nos movimentos empolgantes bem ensaiados e no cuidadoso backing vocal de Lobão. E, obtendo resposta do público, sentiu-se a vontade Ton para descer do palco através de uma inusitada acrobacia cuja elasticidade, após puxar ritmo de carnaval na platéia, lhe serviu para retornar ao palco por meio de uma cambalhota sem soltar a guitarra! Tudo pronto para, covardemente, grudar em nossas mentes a melodia da música Pressuposto, que já entoavam os espectadores antes de sua execução.

Mas o que de fato faz Nevilton além de um show impecável e animado com melodias viciantes? Eles citam algumas referências, dentre elas Los Hermanos. E sim, isso é visível, mas ao som que fazem, tal comparação é simplória, pois Nevilton é uma confluência sutil de uma linguagem ampla que se construiu no rock, principalmente pelos Beatles, fonte da qual se servem mesmo que por algumas goladas, mas o fazem diretamente, aproveitando-a sem intermédios. Ton solta no vocal dissonâncias agudas inspiradas em Stephen Malkmus, embora lembre Nando Reis em outros momentos. Entoa letras que geralmente não tratam de outra coisa senão de relacionamentos pessoais a qual todo jovem já provavelmente passou, e que, descritos de modo genérico, faz com que a maioria dos ouvintes se identifique. A sonoridade das palavras é boa.


Com grande domínio, a banda arriscou um forró e foi correspondida prontamente, a interação com o público foi excelente. Em A Máscara, estavam todos com as mãos para o alto batendo palmas, momento em que o trabalho de iluminação e toda a estrutura de palco fez diferença. E a coisa só cresceu ainda mais. Na sequência, Tempos de Maracujá trouxe os audaciosos agudos do vocal de Ton, além de um belo e empolgante gritaço! Com Me Espere, Menino Lobo, para finalizar com tudo, um solo de guitarra virtuoso, porém nada gratuito. Não contente, o agitado Ton destruiu na bateria que Chapolla abandonou para saltar loucamente na platéia ao fechar a grande apresentação com louvor e glória. Esforços não foram poupados para isso! O encerramento do show foi coisa linda de Deus, deixando todos na pilha pra a festa no Armazém que viria a seguir.

Mais fotos do Grito Rock 2010 em São Carlos aqui e aqui!


Ensaio: Do Grito Rock São Carlos - Continuando.


Este ensaio dá continuidade ao texto publicado aqui na ocasião do Grito Rock de 2009, em que falava-se do evento em São Carlos e de seu organizador, o Massa Coletiva, numa de suas primeiras grandes ações feitas na cidade. A bem da verdade, tomou-se ali o Grito Rock e o Massa como exemplo para pincelar as ideias que giravam ao redor da lógica estabelecida em torno dos festivais de música independente, as bandas que deles participam e o público que os assiste.

Na época, nos trouxeram várias críticas em cima das próprias considerações daquele texto, que falava numa menor escala da lógica envolta no mercado paralelo que é a música independente e apontava com maior destaque os entraves por ele gerados a evolução enquanto forma e conteúdo da música, deixando de lado questões como a visibilidade e até certo o respaldo ganhos por este mercado. O texto ainda é pertinente dentro destes aspectos, quase passível de republicação mudando-se tão somente a data, já que não houve grandes mudanças neste cenário. Contudo, algumas justificativas carecem de maior delonga, então, eis aqui outra tentativa.

Naquele texto de 2009, houve interessantes réplicas nos comentários de Cardelli, vocalista e guitarrista dos Visitantes. Contudo, lá não se falava em falta de originalidade por parte das bandas, como inferia Cardelli, mas sim da estagnação em torno de forma e conteúdo e mesmo da estética por elas produzida. Estagnação, senão retrocesso, que ainda assim dá margem a originalidade, mas frente a insistente pós-modernidade na mescla de gêneros e elementos étnicos recai na fórmula maceteada usada por um sem número de nomes da música hoje.

De todo modo, a crítica daquele texto não era tímida, só era ponderada, porque de fato há aspectos interessantes nessa história toda. A crítica, na verdade, reside no simples fato de que nada se faz de diferente falando dos festivais do independente, coletivos e afins. Cria-se apenas um mercado paralelo, uma franca necessidade dos tempos em que implode o número de bandas e o acesso a elas fica facilitado, pela velocidade tanto da produção musical quanto de sua divulgação em função do mar de tecnologia aberto nos últimos vinte, trinta anos, mas mais especialmente na última década. E este mercado não é recente, provavelmente sempre existiu, sob diferentes óticas, em diferentes momentos.

Por exemplo, hoje mesmo, tomemos das metrópoles, grande São Paulo. Essa articulação lá não parece precisar de fato dos coletivos, acontecendo de uma maneira ou de outra. Tanto que o grande coletivo paulistano é o próprio Massa Coletiva, em São Carlos. Não seria estranho pensar no representante estadual dentro do Fora do eixo estando fora da capital? Mas faz todo sentido. Em tempos de ALTERCOM, São Paulo tem canais de comunicação demais, muita informação transitando nos meios, sendo tão fácil chegar as pessoas que algumas preferem a inanição a aproveitar o que a cidade oferece. Fato é que em São Paulo o mercado independente e o mercado convencional se mesclam, em certa medida, de tal forma que é difícil desvincular um do outro, aos olhos menos atentos. Fora dos grandes centros esta iniciativa é provavelmente necessária para fazer tudo acontecer, do contrário o mundo iria definhar, já que o grande mercado ali não chega. Afinal, não é essa a ideia, fora do eixo? Que eixo? Rio-São Paulo. Curitiba, Brasília, em menor escala. Porto Alegre?

Inegavelmente há uns vários aspectos interessantíssimos dos festivais envoltos na rede estabelecida de música independente, em específico do dito Grito Rock, que nunca deixo de comentar. Depois de limpar os pés no capacho da porta de entrada do ano, se cria uma outra agitação para a época de Carnaval, colocando indiretamente alguns questionamentos a esta conturbada e polêmica festividade. Afora isto, quando se põe em xeque desta maneira muitas das atividades desenvolvidas na linha destes festivais, outros produtores não ligados a estes coletivos e alheios a esta lógica acabam empolvorosos. E vale destacar que este mercado é cada vez mais monstruoso ao perceber como é exponencial o número de cidades envolvidas nos festivais, bandas circulando e público participando.

Um reflexo da forte articulação destes coletivos é por exemplo a possibilidade de bandas ligadas a estes atravessarem em menos de um mês as cidades de um estado inteiro, senão várias cidades ao longo do país, pelo Grito Rock. Os Rélpis, de Araraquara, ligados ao coletivo Colmeia Cultural, e o Aeromoças e Tenistas Russas, de São Carlos, ligados ao Massa Coletiva, são exemplo notável disto. A despeito da boa qualidade do material, sem esta ponte propiciada por iniciativas como as do Toque no Brasil, portal que agenciava bandas, casas de shows e os coletivos para o Grito Rock, bem como o apoio e articulação dos Coletivos, eles não teriam conseguido esta visibilidade tão facilmente. Logo, conquistaram o Estado, especialmente porque os dois shows estão muito bons, a ponto de precisarmos resenhar Os Rélpis com urgência e re-resenhar AeTR, com o repertório muito mudado já.

Há ainda o mérito do desenvolvimento sustentável, a patavinha da economia solidária e tudo o mais, mas não vamos entrar nesta discussão no momento, deixamos as considerações pobres mesmo neste quesito.

Retomando, como bem é mostrado no Identidade Musical usando da palavra de Luiz Tatit, sempre houve o independente, o artista a margem das grandes gravadoras ou mesmo de qualquer gravadora, que acumulava tanto a função técnica quanto a artística. Afinal, as verdadeiras demos não eram fitinhas com um nome escrito na fita crepe a caneta? E em alguma instância, a grande maioria tanto de antes quanto de agora invariavelmente pensa em atingir, senão o grande mercado das gravadoras, pelo menos o status dos artistas delas.

Sendo bastante pragmático, me apoio mais uma vez no texto do Carlos Rogério do Identidade Musical, apontando que os modelos continuam os mesmos e o público mal sabe a valorizar os projetos ousados. Mas aquela conversa sobre estagnação rivaliza com os projetos ousados. A questão é que mesmo os projetos ousados, citados por Carlos Rogério, como Macaco Bong e Porcas Borboletas, não o são tanto assim. Macaco Bong bebe de muitos elementos lá de fora, vide Russian Circles. Porcas, poutz, já me eram óbvias influências da estranhamente desconhecida Vanguarda Paulistana antes mesmo deles surgirem junto do Paulo Barnabé. Claro, nem por isso deixamos de gostar e desmerecemos. É bom trazer estas influências, é bom mostrar ao mundo que mais há, é bom inseri-las aqui, e é bom fazer o que se quer.

Se é que ainda não se aponta armas às bandas que continuam a produzir seguindo modelos velhos ou inserindo-se em fórmulas já concebidas de inovação, o que se questiona aqui faz muito tempo é o papel destes coletivos todos, destes festivais todos, enfim, da música independente, em mudar esta concepção estabelecida e tão enraizada do que é fazer música. Acontece que o interesse destes grupos não é mudar isto, pelo menos não o que importa. Afinal, é notório que toda esta rede é uma mercado paralelo, uma indústria exatamente como o mainstream, com um modelo de negócios como bem diz Pablo Capilé para O Inimigo ou como Bruno Nogueira no Pop Up! afirma ao apontar o caráter de feira de negócios que se vê na Feira da Música do Circuito Fora do Eixo. Quase demora pra se perceber isto. E o pior é que todos eles tem plena consciência disto. E não se importam. Afinal, é um ganha-pão. Engraçado é que eles debatem, insistem na proposta, vendem a ideia a todo custo, mas nunca dizem quanto ganham.

Aí, é mais demorado ainda perceber que não, eles não estão aí pra mudar o modo de fazer música. Não é o interesse deles, talvez sequer seja seu papel. Eles estão aí para mudar o modo de vendê-la. Ou não mudar, mais propriamente, apenas encontrar alternativas para fazê-lo. No termo 'mercado da música independente', a música é a mesma, só muda o mercado. Parafraseando o bom dito do nobre Djalma Nery Ferreira Neto, a música independente é feito a abolição da escravatura: É só uma conjuntura da lógica de mercado se adaptando a novas condições sociais.


Cobertura: Segunda-feira do Grito Rock São Carlos 2009 - Homiepie e outras histórias

Se fossemos seguir a linha de nosso post anterior sobre o Grito Rock São Carlos deste ano, com certeza não teríamos bons comentários sobre as duas noites de Carnaval, seja Segunda, 23/02, ou na seqüência Terça, 24/02. Contudo, algumas das bandas ali surtiram algum efeito sobre a equiparagem do Programa Bluga, mostrando-se relevantes, tanto é que cá trazemos algumas impressões.

Claro, era Carnaval, mas aparenta-me que para a população do Armazém Bar não fazia muita diferença, tratava-se apenas de mais tempo livre pra ir curtir um bom rock, tomando o Grito Rock como das poucas atividades passíveis de se fazer para os mais incautos nesse feriado prolongado.

A primeira noite do Grito Rock, a mais curta das duas, começava às 21h. Prevendo atrasos, chegamos ao Armazém Bar, palco de quase-sempre, pelas 22h, e como bem suposto, por praxe, algum atraso aconteceu. Enquanto ainda não rolava o som, demos uma olhada na Praça Coronel Salles, recém-reformada, com iluminação charmosa para a noite. Lá aconteceria a Feira de Cultura e Economia Solidária no dia seguinte, em concomitância a terça-feira Grito rock São Carlos. Finalmente às 22h35 abria-se oficialmente a edição 2009 do Grito Rock, como bem anunciava o DJ desse começo de festa e de todo intervalo das bandas, Jovem Palerosi.

Sendo segunda-feira, dia corriqueiro do Programa Independência ou Marte pela Rádio UFSCar, nada mais justo do que fazer a transmissão ao vivo do Grito Rock no Armazém para os ouvintes. Infelizmente alguns problemas técnicos não possibilitaram a empreitada, um dos fatores que atrasou um poquito o começo das atividades.

Não que a primeira banda tenha tido alguma relevância. Dos cinco nomes apontados para esta primeira noite, a abertura do dia, a banda Inventiva, de Sorocaba, se mostrou o mais fraco de todos, uma grande falácia, começando já pelo seu nome. Traziam a ridícula proposta de fazer garage rock mais que propositadamente estúpido, escolhendo temos banais para tratá-los da maneira mais degradante possível. Usando de riffs ainda mais desgastados que esmalte de unha de faxineira, nada acrescentam, se é que não desmerecem algumas ideologias. Se isso é o resgate do espírito rock, lamento, mas eu desisto.

Se alguém se interessar, segue o setlist:
01.Rádio Sapólio; 02.A Vida Secreta de Genésio Tobias; 03.Frito e Assado; 04.Não; 05.Bafo (In the Morning); 06.Mary Jane; 07.Arroz de Puta; 08.Yakult; 09.Papa; 10.Cortaram meus Braços; 11.Beco do Inferno; 12.Cabaret; 13.Viet Nam; 14.Dr. Mastur Bando; 15.Cotidiano; 16.Dorflex.

Essa foi uma das poucas apresentações onde o tempo delimitado para cada banda, de 30 minutos, foi longo demais. Felizmente o intervalo serviu para afastar o som ruim dos ouvidos, com Palerosi relembrando nosso querido Contato, com Bongs, Porcos e Cérebros emendados um atrás do outro. Mas enfim, o Grito Rock ainda daria sua cara como grande festival...

Mudando justamente da sopa sem sal da internação na Santa Casa para as tortas caseiras da mamãe ganso, vinha na seqüência a Homiepie, de São Paulo. Os já-antes-famosos Flávio "Six" Seixlack (voz e guitarra) e Denis "Denem" Fujito (guitarra) mais a menina Bruna (voz, teclado, metalofone e percussão) traziam na bagagem umas poucas faixas, maioria delas já gravada no EP Fireworks, mas que cairiam redondas no seu tempo de palco. Esse material bebe de uma onda que ganha força nos EUA, transparecendo por aqui no cinema, nessas películas estreladas por Michael Cera, como Superdbad, Juno e Nick and Norah's Infinite Playlist. Trata-se da exaltação nerd, que assume o posto de belo, atraente, o novo sexy e cool. Os três trejeitam-se assim do vestuário listrado e tênises all-star-adidas aos óculos fundo de garrafa. Tamanha é a força dessa onda que nos seus pouco mais de seis meses de vida o Homiepie já chamou a atenção da mídia independente e tocou ao lado de gente muito grande, sinal de que há ouvintes para esse som.

Vamos nos delongar poquito mais nesses garotos e dedicar o posto a esse som folk, com estes índios entrando na hora das bruxas para a sua meia-hora de show. Trouxeram de primeira faixa a abertura do EP, I mean, Fire. Ao vivo o som em nada difere do lo-fi das gravações, com direito às incursões de Bruna nos teclados e no metalofone, tão colorido quanto um brinquedo de criança, enquanto Six e Denem criam o clima de madrugada em volta da fogueira com violão e guitarra. Detalhe, a letra traz a frase "Ooh, four... I mean five... I mean fire!" proferidas por Maurice Moss, em The IT Crowd, numas das melhores gags de abertura da série britânica. Mais nerd, impossível.

Na seqüência, Piano, faixa que começa a embalar verdadeiramente a platéia do Armazém Bar. Toda divertida, sai ali pela primeira vez o acompanhamento de Bruna nos vocais em uh-uhs que dão o clima gostoso a faixa, além das palmas dela própria e de Denem acompanhando. São crianças fazendo música! A aura de timidez que os acompanha é mitigada no palco, deixando rolar a voz de Bruna, sem grande embaraço, mas não perdendo o jeitinho de ser. Denem, ao canto com sua guitarra pouco se mostra, aplicando-se tão somente ao instrumento e depositando ali seu sentimento, como que ignorando o restante dos acontecimentos.

Colorblind é a terceira da noite, que me trouxe a mente outro seriado, na abertura de The Office, pelo começo com os teclados e tudo o mais. Na seqüência, uma faixa nova, ainda não gravada, com direito ao Denem tirando uma escaleta sabe-se lá de onde (que TODO mundo está usando, pelos deuses, será que é por que na década de 80 essas coisas eram dos brinquedos mais legais de se ter?). Aparentava será faixa mais morosa até então, até a garota também sacar um pandeiro meia-lua enquanto segue o violão de Six, acompanhando a Escaleta de Denem. Apesar de não ser um vocal trabalhado, Bruna e Six funcionam juntos. Tudo é simples, mas cuidadoso, assim, realmente belo.

Falando em faixa nova, aparenta que eles têm algum material novo, que será liberado aos poucos, até fazer corpo para um álbum cheio. E de material novo seria a próxima faixa, lançada como single: You Melt, we Melt. De últimas, Bye, com mais corais, e Flying Machines, homenagem aos muitos filmes de Hayao Miyazaki, com suas máquinas voadoras. Viva Nausicäa! Flying Machines se mostra das faixas mais divertidas da noite, com direito a um coquinho fazendo as vezes de percussão na mão da menina. Faixa daquelas de chamar a atenção da platéia, que acompanha com um coralzinho de lá-lá-lás.

Em tempos de YouTube, com vídeos de baixa qualidade e áudio mono, o material desses garotos se ressalta. Seja um grande clichê indie ou não, Homiepie faz um som único em terras brasileñas e ganha créditos por conta disso. Seria desmerecido pela óbvia cópia lá de fora, mas enfim, não será nada inusitado se lá-fora vier buscar eles aqui dentro.

Pausa para mais discotecagem, com La Pupunha em lances do Dark Side of The Moon com ritmos paraenses. Nesses momentos, cabe comentar o clima do bar, que já estava muito perto de lotar, se é que não veio a lotar mesmo. Contudo, aparentemente o Armazém Bar não esperava todo este público para o Carnaval, deixando acabar a cerveja mais de uma vez. E esse fim-de-estoque levou a coisas inusitadas, começando a noite com long neck de Bohemia a R$2,50, passando por lata boba de Skol de 269(DUZENTOS E SESSENTA E NOVE)ml por dois paus e terminando com Brahma de 600 ml por R$3,50. Afora a própria lata de refrigerante, por incríveis R$3,00. Até entendo que nem toda a molecada caia na cevada, mas precisava chegar a esse ponto? Nem vou falar da organização da cozinha e as batatas fritas, senão não volto mais no Armazém. Ou volto, porque não tem outro canto mesmo.

Gigante Animal seria a terceira banda a se apresentar nesse pedacinho de Festival em São Carlos. Os rapazes já haviam excursionado por estas terras paulistas de pinheiros-do-paraná, na ocasião do 4x4 promovido pelo Massa Coletiva, em cima do formato do pessoal do Escuta Essa. Mas naquela ocasião não tivemos a oportunidade de vê-los. De qualquer maneira, não é dos sons mais interessantes, em nossa insaciável busca por novos horizontes, mas vamos ao show...

Os quatro rapazes subiam ao palco à uma da manhã em ponto, com Lucas Wirz, empunhando guitarra e ao mesmo tempo a frente dos teclados AND vocais, num lance meio Geddy Lee, tudo junto; ao seu lado, Henrique Zarate no baixo e voz; Renato Ribeiro mais ao canto na guitarra e Thiago Andrade ao fundo com as ferragens da bateria.

Trouxeram de uma paulada só três faixas, Sujeito Oculto ou Caminho Haurido, Santa Paciência e As Mesmas. Intervalinho inteligente em silêncio, fazendo parte da apresentação e emendaram mais duas, Pra Mim e Compasso, onde o vocal se concentrou no baixista, Zarate, que vai se revezando com Lucas Wirtz ao longo do show. Apresentaram a banda finalmente, pra vir ao excerto final do show, com Agora Tanto Faz, Diz Ter Certeza, Conjuntivite e Ah, Tá Bom.

Nos finalmentes, seu som se assemelha com várias outras bandas que vem despontando por aí, num rastro de Loser Manos e Camelos. Refletem a preocupação com certo lirismo nas letras, priorizando-as em relação ao instrumental, por vezes mais simples, mínimo. Em estúdio, notadamente os vocais sobressaem-se, tentando justamente reforças essa impressão. Na mesma pegada de gente como a Instiga, de Campinas, que vimos no Festival Rock na Estação de 2008, de Vanguart, do primeiro Contato, ou em vários aspectos como outra das muitas "revelações", a Ecos Falsos.

Confete e serpentina aos ares, pra lembrar que é carnaval, e às duas da matina sobe o The Violentures. De longe seria a banda mais profissional da noite, por assim dizer. Aparenta-me que em vias de fato assim o é, com os sujeitos tendo alguns anos de palcos, o que explica a postura firme e desenvoltura, bem como o ótimo material. Nas palavras do próprio baixista, Carlão Brando, enfiado em um jeans surrado e coturnos, com tatuagens aos montes nos braços por conta da regata vermelha "...começamos como uma banda de Surf Music e agora colocamos um pouco de garageira no meio", o que com certeza faz um com caldo. Ao seu lado, a guitarra de Stenio Von Zuben, genial. Aliás, guitarra divertidíssima, com tirante de estampa de oncinha e um decalque com o rosto da figura no verso. Fechava o trio Fábio Truck Boy, não menos competente, com muita força na batera.

Apresentaram a maioria das composições de seu último álbum, datado de 2005, Garage Boosters, entremeado por algumas composições mais antigas. Segue o setlist: 01.Shake'n'Move; 02.Astroman; 03.El Cabron; 04.Casbah Fever; 05.Garage Boosters; 06.Octo Punch; 07.REC (Recognize Me); 08.Endless Girls; 09.Poseidon; 10.Black Widow.

Se portando como num grande festival, saíram cobertos de palmas, além de outras tantas despendidas a cada performance música-a-música. Tanto é que foram a primeira banda da noite a deixar o palco sob pedidos de bis, que obviamente não foram atendidos. Lembrem-se, festival, tempo contado, muitas bandas, nada de repeteco.

Para encerrar os shows propriamente ditos da noite, viriam os sujeitos do Narcotic Love, de São Paulo. Encerrar a balada ao som de eletro é exatamente o que o público queria nessa noite de Carnaval, depois da canseira que nos deu o Violentures. Com uma produção visual bacanuda, a entrada arrebatadora do vocalista com um megafone vermelho berrante, combinando com sua camiseta em contraste com o restante da banda trajando preto. Engraçado como o rock usa desses artifícios visuais desde sempre, não?

Vocais de um pop empolgante, bon-joviano, ao lado das maquinadas na bateria acompanhada por um baixo marcado acompanhando a guitarra geniosa, fazia-se o clima dançante. Seu show se centrou nas faixas de seu álbum homônimo, disponível para download no Trama Virtual da banda. Realmente embalaram o pessoal ali, que ora cantava junto os refrões em inglês, mas grudentos de simples, ora acompanhava com palmas, sem nunca deixar de se mexer freneticamente.

E quando pensamos que tudo acabou, lembramos que ainda tem a discotecagem de Humberto Finatti. Aqui dando as caras como DJ, com direito a air guitar usando uma guitarra na real, rolou um som além das cinco da manhã, correndo por várias das décadas indie, quase em retrospectiva, na verdade. Embalou muito bem a galera dando continuidade a festa por boas duas horinhas. Enquanto crítico de música, jornalista que é, fez a cobertura do evento em sua coluna Zap'n'Roll sobre o Grito Rock, com elogios a algumas bandas e à organização, tida como superior a da terra-mãe do festival em Cuiabá. Em paralelo a isso, impossível não destacar, teceu comentários voluptuosos ao mulherio são-carlense e em especial a uma das senhoritas da organização do Massa coletiva. E o Massa, claro, não poderia deixar de aproveitar esse material, divulgou o texto em seu blog. Contudo, tesourou as passagens mais interessantes, pra não dizer as picantes, e a alfinetada ao pessoal do peixe-com-maxixe. Enfim, que fizessem a venda da imagem deles, reapresentassem os comentários, no que comumente chamamos de na tal blogosfera, mas não tesourassem o texto e o vendessem como na íntegra. Mas paremos de falar, senão daqui a pouco barrarão certas pessoas a porta dos eventos. E, apesar dos pesares, os eventos do Massa valem à pena.

E ainda nos resta falar de terça, mas isso fica pra outro post. De qualquer maneira, mais fotos podem ser conferidas na conta do Picasa do Programa Bluga. Confiram!


Fotos: Vincent de Almeida

Ensaio: Do Grito Rock São Carlos - O Massa Coletiva

E eis que o verdadeiro início do ano tem seu lugar, justamente após o Carnaval. Dentro da música, mergulhando no Rock, em São Carlos e tantas outras cidades essa indolência também começa a se firmar, com mais um Grito Rock chutando as portas de 2009.

Na ocasião do Grito Rock São Carlos em 2008 ainda não tínhamos Programa Bluga, mas acompanhamos de perto alguns dos nomes que lá tocaram, como Fenícia, Stranhos Azuis e Plano Próximo. Nesse ritmo um novo nome ganhou forma e tomou para si a organização desta edição: o Massa Coletiva.

Como o próprio nome diz trata-se de um coletivo, visando levar a frente iniciativas que já existiam dentro da cidade principalmente no cenário musical. Agora estão re-unidos todo um pessoal conhecido da Rádio UFSCar, programa Independência ou Marte e de bandas como o já mencionado Plano Próximo e o Malditas Ovelhas! (que a bem da verdade são figuras que se repetem nesses meios). Ponderando os números, ao lado de outros nomes, estes mesmos sujeitos se relacionavam antes sem constituir o grupo de agora, o que já havia nos proporcionado grandes momentos, como o Festival Contato, diversas noites de quarta do chamado Palquinho Maluco na UFSCar e todo mês a Independência ou Marte - a Festa.

O principal aspecto do Massa Coletiva que o torna interessantíssimo é apoiar-se na economia solidária. Isto possibilita grande desprendimento das amarras do capital, priorizando o trabalho do músico unicamente enquanto música. A despreocupação com lucro em si, que toca a questão do cachê das bandas (que vestem verdadeiramente a camisa do coletivismo) leva a festas baratas, senão de graça, o que inegavelmente atrai o público como mel às moscas. Isso também aliado a certa independência financeira, já que o grupo tem acesso a equipamento de som e a alguns locais sem grande ônus, viabilizando facilmente os eventos.

Entretanto, justamente esta vantagem leva a uma disparidade para com as possibilidades deste núcleo. Ao conseguir a atenção de um público maior, seja com palquinhos abertos na Federal ou grandes shows gratuitos na Praça do Mercado, seja com festas quase de graça no Armazém Bar, inicialmente pensa-se que a questão seja criar uma audiência e realmente fidelizá-la, criando um vínculo com a agenda das pessoas, apresentando material um tanto quanto acessível e eclético, ainda dentro do Rock. Isso lembrando que em se tratando do estilo majoritariamente o número de ouvintes é pequeno no nosso país regado a calor. Contudo, transparece uma grande preocupação com o mercado, que tolhe não o músico, mas a música.

Enquanto faz-se ampla divulgação do som das bandas, enfim, do nome dos músicos, o que ocorre com a música em si é seu enclausuramento dentro das formas já conhecidas. Em outros termos, com absurda incidência, o que passa pelos palcos nada mais é do que bandas reprodutoras de estilos já consagrados. Há sim uma nova roupagem, mas que apenas camufla o desgastado, uma casca um tanto quanto fina de tinta sobre paredes com poeira.

O Programa Bluga está perto de fazer um ano e neste espaço de tempo tencionamos escrever sobre bandas que julgamos interessantes na cidade, que faziam um som relevante. Entretanto, a importância da maioria dos sons aparenta ser meramente histórica, especialmente no tocante as bandas covers (algumas delas excelentes, que se conste bem). Poucas são as bandas que excursionam por novos estilos, e quando o fazem estes estilos são apenas o resgate de velhas escolas, mesmo dentro do rock autoral.

Há também aquelas, poucas, que promovem uma inversão dos valores de refinamento musical, com som mais simplista. Embora tenham todo seu mérito, afinal há vertentes e mais vertentes explorando seriamente estas questões, não se aproveita este novo entender para transpor as barreiras da música. De maneira semelhante se há um estudo do old school não se vislumbra o próximo passo. O que fica é uma incômoda sensação de que não se produz nada novo, apenas se cultua as gerações passadas, o que é péssimo em se tratando do Rock, que deveria ser carregado do espírito inovador.

O que se vê é sempre mais do mesmo, com as bandas apresentando sempre o que o público quer e espera, ou gosta. Claro que falta o caráter inquiridor do ouvinte. O que seria ideal é que este mesmo público exigisse mais, que ele buscasse uma experiência completamente nova, o que faria dos músicos uma vanguarda de retaguarda. Isso é um tanto quanto improvável de acontecer, então seria melhor esperar dos músicos que atacassem o inexplorado, caracterizando como vanguarda, tentando estar à frente de seu tempo, afinal eles são os artistas.

Esse questionamento tem sua resposta então justamente no Grito Rock São Carlos de 2009. Com dois dias de shows, uma segunda-feira com cinco bandas e a terça de carnaval com dez, correu-se os mais variados estilos. Desses números, pouca ou nenhuma era a inovação. É bem verdade que uns e outros do pessoal ali apresentaram material que vai de encontro ao que está em voga lá fora, ao mesmo tempo em que metade das bandas tinha alto gabarito e material de boníssima qualidade, mas mesmo assim recaiam no papel de ambíguas mantenedoras de uma tradição não-secularizada.

Claro que se pode pensar no entender da música pelas bandas, que fazem o som que elas gostam e isso é um tanto grande do espírito roqueiro. Isso seria não se preocupar com a reação do público, mercados e afins, mas transpor sentimento à música. Entretanto, este fazer-gosto deveria ser diferente de fazer igual ao som que elas gostam de ouvir. Deveria ser fazer o som que elas gostam de tocar, ou mais profundamente, o som que espelha os músicos enquanto pessoas, enquanto pensamento.

Embora o espaço do Massa Coletiva se mostre o ideal para explorar as possibilidades aqui referidas, ainda resta a vaidade em necessitar da grande platéia, que parece completamente injustificada. Em um cenário otimista, a idéia de formar público primeiro, para depois introduzir este material faz certo sentido, mas vai contra um intuito maior para a coisa. Talvez a questão seja outra ainda, encarando-o como uma incubadora de bandas ou talvez um kibutz musical, proporcionando às bandas sua subsistência. Cria-se inclusive uma corrente entre coletivos de propósito semelhante, que pelo intercâmbio humano, propiciam a sobrevivência das bandas dentro do meio deles, com um circuito de festivais, num mercado independente auto-sustentável.

De toda maneira, do lado das bandas ainda há outro aspecto, onde toda esta máquina mostra-se coerente, afinal, o trabalho das bandas é ganhar fãs. Talvez a justificativa para este caráter do Massa Coletiva seja então o número de músicos envolvidos, que entendem ser este o processo relevante. Apontemos então o papel de divulgar material novo a outros, que não às bandas e seus respectivos coletivos: O problema é que não vislumbro tão facilmente estes outros, enquanto interessados nessa perspectiva.


PS: Claro que gostamos do som que rolou no Grito Rock. Logo mais, traremos uma pequena cobertura com impressões, setlists das bandas que valeram a pena, ao invés desse ensaio pretensiosamente inquisidor. Já é possível conferir uma seleção de foto no Picasa do Programa Bluga, aqui e aqui também.

Download: Especial de Natal (?) com Stranhos Azuis - 2008 - Stranhos All Vivo


Eis o nosso post de antecipado de Natal, tentando justificar nossa ausência na virada de ano e dando um presente para os leitores! Não que comemoremos o nascimento de Cristo, nem que estejamos longe da música. Mas fica o presente.

Enfim, alguma verborragia... Em um primeiro momento o objetivo deste blog era tão somente fazer resenhas de apresentações ao vivo aqui. Posteriormente, surgiram coberturas de festivais, mas sempre relegou-se a planos menores resenhas e críticas de álbuns. Disponibilizar links para álbuns, mesmo os interessantes, não era foco nosso. Para isso já que existe um sem-número de blogs prestando esse serviço. É só pesquisar utilizando-se do Google BlogSearch e conferir. Isso para não entrar nas discussões sobre o mérito moral e legal disto.

Contudo, uma ou outra coisita escapa dessa malha fina. Assim, vamos disponilizar aqui para download material de acesso mais restrito ou inédito que as bandas que nos procurarem quiserem divulgar. E como o Programa Bluga fala especialmente do 'ao vivo', bootlegs de apresentações serão sempre bem-vindos.

Para inaugurar essa iniciativa, apresentamos as gravações da banda de Blues Rock Stranhos Azuis, saída vencedora do II FeBICA recentemente. O áudio foi tirado nos estúdios da Rádio UFSCar, então a qualidade está bastante apreciável! Aparentemente este som rolou ao vivo na Rádio, antevendo o show dos rapazes no Grito Rock de Sanca neste ano. Aliás, o Grito Rock acontece novamente em 2009, como sempre em pleno Carnaval! A organização, do Massa Coletiva, abriu as inscrições. Mais informações aqui.


Stranhos Azuis - 2008 - Stranhos All Vivo

SETLIST
01 - Ninguém é o dono do mundo
02 - Lucille
03 - Thunderbird
04 - Texas flood
05 - Deixa pra lá
06 - I just want to make love to you
07 - Got my mojo working
08 - Walking in my shadow
09 - Tudo bem tudo bom
10 - Walking by myself
11 - All your love
12 - My sunday feeling
13 - Jack joker boy
14 - A new day yesterday

Download aqui!


Em tempo: O Perfil dos Strange Blues no Orkut está acusa o seguinte: 'Stranhos Azuis - GRAVANDO!!!' Que será que vem por aí?