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Especial: Programa Bluga Ano Um – Especial de Aniversário


Programa Bluga quer iniciar uma conversa com você.

Vanderlei: Parablugas! Eis que o Programa Bluga faz hoje seu primeiro aniversário. Não que isso seja realmente muito importante, mas é um marco, então comemoraremos a data com alguns comentários sobre o que nós do lado de cá vimos, mas o leitor aí não leu a respeito, porque não escrevemos mesmo. Vamos também relembrar alguns outros fatos memoráveis, claro. Tudo com comentários exclusivos de cada sujeitinho aqui.

Rodrigo: Não é realmente um marco MUITO importante, mas é importante. Pelo menos na medida em que, espero, tenhamos criado alguns leitores assíduos que têm como interesse compartilhar de nossas idéias e críticas em relação ao cenário da música atual.

Com sorte, dentre esses leitores, atingimos algumas cabeças que podem fazer repercutir, pelo menos um pouco, determinados pensamentos aqui expostos.

A todos os músicos e organizadores de eventos que esperam ter um mínimo de feedback (nem que, por vezes, negativo) e a todos que buscam mais informações sobre essa ou aquela banda, vocês são a razão de ser do Programa Bluga e o bolo seria oferecido a vocês, caso fôssemos comer um.

Felipe: Um ano de Programa Bluga! Bom, dou as caras para dar as muitas merecidas felicitações ao blog e, como já dito, comentar os vários eventos que julgamos dos mais notáveis que ocorreram este ano, e também aqueles que passaram sem serem comentados no blog, mas que também achamos relevantes.

Marcelo: Como todo "ano novo" que se preze, vêm também as promessas de mudanças e melhorias. Não que o ano que passou tenha tido cagadas memoráveis que necessitem retificação, mas fica sempre uma vontade de crescimento. Ademais, 2009 pode marcar o ano de um certo êxodo dos blugueiros da cidade de São Carlos que, assim como eu, podem seguir vidas profissionais Brasil, quiçá mundo, afora.

Dessa forma, faz-se necessária a tomada de decisões pelo futuro do blog o que, de minha perspectiva, pode ser uma expansão do blog com novos colaboradores e participação mais ativa em comunidades relevantes. Ou talvez a própria criação de perfis nessa web 2.0 de hoje.

De sobra, temos pique pra continuar e vamos levar o blog ao seu próximo passo, já que nada nessa vida é fixo, muito menos se tratando de música !

Vanderlei: Já que nosso mote são shows, comecemos por eles. No ano que passou não comentamos muito, mas você precisa saber que a Virada Cultural de 2008 foi um lance ALTAMENTE fodástico. Sinceramente é difícil imaginar cenário melhor para o evento, com um show épico do Terreno Baldio, marcando sua volta aos palcos ao lado do Som Nosso de Cada Dia. E isso que perdemos altos lances, como Jair Rodrigues junto com o Zimbo Trio, ou mesmo Tarancón e De Puro Guapos.

Vejamos que acontece na Virada este ano! Conseguirão eles se superarem? Eles abriram inscrições, vamos ver se eles captam algo de novo. Já temos as datas, 05 e 06 de Maio (Não esquecendo da Virada Paulista, dias 16 e 17 do mesmo mês, em trocentas cidades do estado).

Felipe: O primeiro adjetivo que me vem à cabeça pensando na Virada Cultural seria “lendário”. Uma Virada sem precedentes, que reuniu bandas clássicas do estilo favorito dos blugas, o progressivo, contando com bandas como Som Nosso de Cada Dia, que fez um show de retorno memorável no Teatro Municipal de São Paulo, O Terço, Pepeu Gomes, e Terreno Baldio (este que superou as expectativas de todos, e se mostrou o show mais foda da Virada para todos, acredito). Claro, a Virada sempre tem o problema de que você sempre irá perder coisas extremamente fodas, como fizemos com Zimbo Trio, Os Mutantes,Tarancón,Fernanda Takai e vááários outros (que nem faço questão de saber quais são).

Vanderlei: Agora, vamos apostar no que é que vai tocar lá esse ano? Aponto gente feito Marcelo Camelo - que só é grandes-coisa pra um sujeito aqui, e não sou eu - DonaZica ou Iara Rennó ou Andréia Dias - que são muito, MUITO grandes-coisa pra todo mundo do lado de cá. Enfim, entre no bolão e deixe seu chute na nossa seção de comentários, vá lá.

Felipe: Das promessas relativas ao ano que segue, DonaZica, Andréia Dias e Iara Rennó, com certeza. Infelizmente, apenas um dos integrantes aqui teve a oportunidade de comparecer a um show, e nem o viu inteiro por motivos de força maior, mas estas meninas são objetos de profunda admiração a todos do Programa Bluga. Este ano, torcemos tanto para a volta de DonaZica quanto para a continuação do trabalho solo das duas, para o bem da boa nova música brasileira. Lembrando de um dos inúmeros músicos que participa de Macunaíma Ópera Tupi, tivemos a sorte de conferir o grande Guizado ao vivo, que foi um dos pontos altos do Festival Contato de 2008, já comentado por aqui, que se revelou muito mais interessante ao vivo do que em estúdio. Macunaíma Ópera Tupi, de Iara Rennó, é um “must-see” de 2009.

Marcelo: Macunaó.Peraí.Matupi da Iaró.a.renn, eu fui!

Vanderlei: Mas sabe o que seria genial de ver na Virada? Fóssil. Em São Carlos, nossa base de operações pra quem não percebeu ainda, sem sombra de dúvida eu diria que foi o show mais foda que vimos no Armazém Bar em alguns vários anos. Simplesmente explosivo, mesmo tocando para uma platéia de uma dúzia, literalmente. Claro, com o bar vazio e somente pessoas realmente interessadas naquele som, a química não poderia ter sido melhor. O pior é que perdemos a reprise dias depois no Palquinho da UFSCar. Deviamos ter ido à Rio Claro ver de novo. Sério mesmo, fora de série.

Outra apresentação sem precedentes no Programa Bluga, muito bem comentada em postagem por uma convidada nossa, foi a de Mônica Salmaso, ao lado do Pau Brasil, cantando Chico. Dona de voz excepcional, que me comove tanto quanto um nome como Mercedes Sosa, esta senhora-com-ésse-maiúsculo não só fez um show bárbaro como também trouxe possivelmente o melhor álbum nacional do ano um do Programa Bluga.

Felipe: Não poderia deixar de comentar shows como o de Mônica Salmaso com Pau-Brasil cantando Chico, uma preciosidade que quase passou despercebida (graças ao quase!), Fóssil no Armazém, um show quase com exclusividade, que superou em muito as minhas expectativas, Badi Assad no Teatro Municipal de Araraquara (um dos meus preferidos do ano), e mais uma vez Terreno Baldio, dessa vez com algumas falhas técnicas, mas que não ofuscaram o brilho dos caras.

Rodrigo: Não é de se espantar, levando em conta os nomes envolvidos, que um projeto como esse mereça todos os elogios possíveis do Programa Bluga. Mônica Salmaso soma toda sua técnica e potência vocal à genialidade de Chico Buarque, acompanhados do instrumental impecável do grupo Pau Brasil. De cara, vê-se que o resultado não pode ser nada menos do que estonteante!

Marcelo: Ao fazer uma retrospectiva do Ano Um, senti que o Festival Contato não teve o mesmo baque que a primeira edição. Ambos foram fenomenais, mas The DTs e Gong tiveram um grande peso nessa minha percepção.

Ficou foi uma ponta de curiosidade de conhecer os movimentos de outros lugares do país, como em Cuiabá (afinal, é onde nasceu o, agora famigerado, Macaco Bong), ou o Psicodália (que parece ser um lugar onde rock e mulheres aparecem numa mesma proporção).

Vanderlei: Pulando de uma vez para álbuns, dentro do material nacional não se pode deixar de citar o lançamento de Artista Igual a Pedreiro, do Macaco Bong. É quase desnecessário comentá-lo, já que todo canal, seja de música ou não, seja online, impresso, radiodifundido ou televisionado falou dos caras. Enfim, eu diria que ao lado de Noites de Gala, Samba na Rua este álbum é um dos dois melhores de 2008 no Brasil.

Rodrigo: Artista Igual a Pedreiro, que inclusive rolou diversas vezes no ambiente bluguístico que cá nos circunda. Nada demais a acrescentar aqui, exceto talvez a velha pergunta: “Seria Macaco Bong o The Mars Volta brasileiro?” (Não!, obviamente, mas o cabelo de Bruno Kayapy me obriga tal infeliz analogia)

Vanderlei: Já lá fora, altamente recomendável é The Ocean and the Sun, do pessoal de The Sound of Animals Fighting. surpreendente, em especial perante o resto do material da banda, o álbum é fruto de uma evolução constante na discografia da banda, em seus estudos dentro de vertentes mais recentes do Progressivo. Particularmente, imaginemos que o próximo álbum abalará alguns conceitos. Ou não.

Marcelo: Realmente, os kudos de 2008 vão para os sons do álbum The Ocean and the Sun, que aliás me recorda muito a banda Brazil, no The Philosophy of Velocity;

Rodrigo: Interessante observar que todos os integrantes do TSOAF vêm de bandas como Circa Survive, Rx Bandits e Finch. Ou seja, já vêm flertando com o experimentalismo há algum tempo. The Sound of Animal Fighting é uma banda cujo rumo vale a pena ser observado, principalmente para aqueles que buscam algo original (certo, nada é 100% original, mas enfim.) nesse mar de simulacros entediantes que rola pelo meio musical.

Marcelo: E o Death Magnetic do Metallica, que fez de conta não existir um tal St. Anger na história da banda (o que foi ótimo, diga-se de passagem)?

Vanderlei: Pff...

Rodrigo: Uma última recomendação é o álbum Bromio, do trio italiano de jazz experimental, Zu. Composto por saxofone, baixo e bateria, tem um estilo quase indefinível, tendo sido descrito por aí como math-rock/noise-rock/punk-jazz e sabe-se lá o que mais. Interessante e diferente, certamente recomendado pra quem está cansado de ouvir mais do mesmo!

Felipe: Para a parte de recomendações, deixo aqui os nomes de Donazica, Iara Rennó, Andréia Dias (nunca é demais repeti-las), CéU, Badi Assad, para prestigiar a música nacional, e a cabo-verdiana Mayra Andrade, terminando a seção Vocal Feminino.

Vanderlei: Última recomendação? Mais um álbum velho, já que falamos de Zu. Anabelas, dos Argentinos do Bubu. Metais, man, metais!

Felipe: Mais uma vez, deixo meus parablugas ao Programa Bluga, que está começando a engatinhar, e que seja o primeiro de muitos!

Marcelo: E pro Ano 2 do Programa Bluga as esperanças residem em ver um mundo menos sertanejo e mais rock. Como sou um homem simples, só isso já me basta! Não bastando, quero ver um show inteiro da Iara e ouvir Som Nosso e Terreno Baldio novamente. Além de varar várias mais noites em shows, muito bêbado...

Programa Bluga encerrou a conversação com você.

Resenha: Mônica Salmaso e Pau Brasil cantam Chico

Nos dia 18 e 19 deste , apresentou-se Mônica Salmaso em parceria com o quinteto Pau Brasil em seu último show da turnê Noites de gala, samba na rua, no Teatro Municipal de São Carlos, mais recente obra abandonada/concluída da cidade.

Destrinchando um pouco a história dos supracitados: Mônica Salmaso é uma cantora paulistana, eleita em 2002 pelo crítico do The New York Times, Jon Pareles, um dos principais expoentes da música popular brasileira. Tem cinco álbuns gravados, incluindo Afro-Sambas (1997), um duo de voz e violão com Paulo Bellinati, violonista do Pau Brasil, contendo todos os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes; Trampolim (1999) e Voadeira (1999), que renderam à artista os prêmios Visa MPB e Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, além de ambos terem sido lançados também na Europa, Japão, Estados Unidos, Canadá e México; Iaiá (2004) e Noites de gala, samba na rua (2007). O último, tema do show em questão, contém apenas músicas de Chico Buarque e é todo gravado ao lado do Pau Brasil.

E falando neles, o quinteto Pau Brasil é referência para a música instrumental brasileira. Formado em 1979, atualmente conta com o baixista Rodolfo Stroeter, o pianista Nelson Ayres e Paulo Bellinati, violonista, da formação inicial; além deles, temos hoje Teco Cardoso, saxofonista e de-outros-sopros, e Ricardo Mosca, na bateria. A proposta inicial do grupo continha um repertório visceralmente brasileiro, embora advindo de influências diversas, como sugeria o Manifesto Pau Brasil, de Oswald de Andrade. Hoje o quinteto acumula festivais e uma indicação ao Grammy, na categoria Best Jazz Group, em 1996, com o álbum Babel, um dos oito lançados até agora. O último, PAU BRASIL 2005 traz interpretações de Villa-Lobos, Ari Barroso e Chico Buarque, além de composições de Rodolfo Stroeter, Nelson Ayres e Paulo Bellinati.

Quanto ao último citado, o Teatro Municipal de São Carlos “Dr. Alderico Vieira Perdigão”, inaugurado em 1964, foi (re)inaugurado no dia 4 de julho de 2008, para a alegria da população são-carlense, sempre ávida por cultura, depois de sete anos fechado, cinco desses em reforma. O teatro foi ampliado e dotado de novos recursos como um bar no piso da bilheteria e rampas para deficientes físicos. Hoje o teatro de arena e o palco italiano somam uma capacidade para 900 pessoas, sendo 404 a capacidade para o palco italiano, sem mudanças no projeto de 1964.

Depois dessa introdução vamos direto ao ponto: o show. E que show! Todos que puderam compartilhar das pouco menos de duas horas de apresentação não hão de negar que sinestesicamente saborearam a voz de uma cantora excepcional, que alcança notas impressionantes e que estava em perfeita harmonia com o Pau Brasil. O quinteto com afinação e arranjos inspirados das obras de Chico, trouxe também a composição de Paulo Bellinati, Pulo do Gato, fazia uso dos recursos musicais dos instrumentistas de uma maneira surpreendente.

O repertório composto por 16 músicas foi de difícil escolha segundo Mônica. Ela disse durante o show que, após uma revisão cuidadosa de toda a discografia do Chico, chegou a uma lista de míseras sessenta músicas. O restante da seleção foi feita junto ao Pau Brasil, que escolheu as músicas com as quais se poderia fazer bons e diferentes arranjos. Ao fim desse árduo trabalho, as músicas escolhidas foram: A volta do Malandro; Quem te viu, quem te vê; Você você; Ciranda da Bailarina; Construção; Olha, Maria; O velho Francisco; Basta um dia; Logo eu; Morena dos olhos d’água; Suburbano coração; Bom tempo; Partido Alto e Beatriz. Além dessas, a já citada Pulo do Gato, e a música final, de apresentação dos músicos, Moda do Pau Brasil, fecham o pacote.

Entre as músicas, comentários e causos foram feitos pela cantora. A começar pela introdução de Você você, na qual Mônica explicou que Chico Buarque resolveu fazer essa música nas vésperas de ser avô, quando sua filha arrumava o enxoval para ir para a maternidade e, na saída, voltou para o quarto do bebê para colocar uma blusa sua dentro do berço, para que o bebê sentisse seu cheiro o tempo todo e não ficasse com medo, o que explica os versos “Que blusa você, com o seu cheiro/Deixou na minha cama?”

Durante o show, Teco Cardoso se revezava em flautas, saxofones e clarinetes, enquanto Rodolfo Stroeter alternava entre contrabaixo e baixo elétrico. Além disso, Mônica Salmaso fez várias incursões por instrumentos de percussão, incluindo pandeiro e chocalho. Dentre as músicas, algumas impressionaram bastante a platéia, como Construção, com toda sua densidade e poesia, Beatriz, na qual a cantora alcança notas altíssimas com muita maestria, acompanhada apenas pelo piano de Nelson Ayres, Você Você, e o novo significado que a música adquiriu para todos aqueles que não conheciam a história do vovô Chico, e Partido Alto, que fechou o show com toda a leveza do samba, antes da apresentação dos músicos.

Outro causo do Chico contado por Mônica: Numa entrevista, perguntaram a ele porque ele fez a música Retrato em branco e preto com este título, e não como retrato em preto e branco, que é como todo mundo chama esse tipo de fotografia. Ele, com toda a irreverência típica, respondeu: “Ah, eu achei que ficava mais poético ‘Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto’ do que ‘Vou colecionar mais um tamanco, outro retrato em preto e branco’. Há, há!

E uma última historinha, que deixou as mulheres da platéia magoadas com Chico Buarque: diz ele que quando estava compondo Ode aos ratos, precisava de algumas informações biológicas sobre os animaizinhos e ligou para amigo, músico-zoólogo Paulo Vanzolini. Ao perguntar ao amigo como era o nariz do rato, se era gelado, quente, úmido, entre outros, recebeu a seguinte resposta, muito merecida “Mas Chico, você mente tanto sobre mulher nas suas músicas, porque não mente sobre os ratos também!?”, e a réplica veio com uma resposta cafajeste “Ah não, mas pelos ratos eu tenho muito respeito!”

Surpresa também foi a apresentação final dos músicos, a qual foi feita com muito estilo através de Moda Pau Brasil, música composta por Stroeter em parceria com na letra com Mônica, que toma Paulo Bellinati por “jóia de raro quilate”, a técnica de Ricardo Mosca por “a leveza de um inseto”, o maestro Nelson Ayres por “bom de harmonia”, além de dar a receita de seu marido, Teco Cardoso com “misture um saxofone com doutor em medicina” e se refere a Rodolfo Stroeter como “toca um instrumento grave e dele sou muito amiga”. Para não faltar a sua apresentação, o contrabaixista cantou a estrofe para Mônica, aquela que “dá um laço no compasso” e “tem voz de santa”. Por fim, o compositor também teve, em sua homenagem, uma estrofe só para ele, que “escreveu com maestria, dos versos faz seu embarque, a palavra ele cria, ele é Chico Buarque”.

Texto: Sarah Barbosa Segalla