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Um olhar sobre o Festival de Talentos da UFSCar

Nos anos de 2007, 2008 e 2009 a UFSCar, através de sua Coordenadoria de Comunicação Social, junto em particular da Rádio UFSCar, trouxe ao público de São Carlos uma iniciativa interessantíssima: O Festival de Calouros da UFSCar. Realizados ali ao primeiro semestre, traziam música, dança e apresentações audiovisuais de indivíduos ou grupos que trouxessem ao menos um ingressante naquele ano às cadeiras da universidade. Este ano, contudo, quando a academia completa seus 40 anos, passam a realizar o Festival de Talentos da UFSCar.


Esta mudança, que promete continuidade segundo a organização do evento - mais uma vez CCS e Rádio UFSCar, amparados pela BCo UFSCar -  passa a abranger não só os calouros, mas todos os alunos e também os funcionários, de professores a técnicos administrativos.

A oportunidade propiciada pelo Festival de Talentos às bandas em particular, mas também às outras atividades, é sem igual. Serve a alavancar novos grupos, que ora se formam justamente para apresentar-se no Festival e acabam consolidando-se posteriormente, bem como a fomentar a outras esferas grupos com curta carreira. Trata-se de um festival incubador, como também foram edições do festival Escuta Essa, do FeBICA (Festival de Bandas Independentes do CAASO), do festival Rock na Estação e várias outras iniciativas na cidade, que acabam explorando diferentes espaços e possibilitando que São Carlos venha a ser um vertedouro de bandas.

Contudo, ainda é estranha a reação e participação do público a estes festivais, em especial prestigiando os talentos, os calouros, os independentes, os "menores". A praxe aqui é ter o grande público vindo apenas aos momentos finais de um festival, a ver o que seria a atração principal, ignorando todo o restante das atividades, que na verdade são o motivo daquele festival existir de fato, do contrário, seria só um show desta dita atração principal. E aqui nasce um dos grandes receios dos curadores destes festivais, que passam a verter toda atenção ao dito headliner, esquecendo-se e assim desmerecendo os demais. Nas edições do Festival de Calouros, tínhamos lá Teatro Mágico a sua primeira edição em 2007 e Móveis Coloniais de Acaju em 2008, quando poucos conheciam estes dois trabalhdos, hoje muito mais populares, e em 2009, BNegão e os Seletores de Frequência, invariavelmente conhecido de um grande público. Neste Festival de Talentos da UFSCar, não era diferente, vinha lá o Quinteto Violado, ícone da música de regionalidades, com dezenas de discos lançados.

A esta mesma concepção de festival, apostar em um headliner de inegável apelo popular, incorrem em São Carlos festival Contato, tendo por exemplo a sua última edição Cachorro Grande, FeBICA, com Pata de Elefante em 2009 e Rock na Estação ainda a 2010 com Garotos Podres. Mas, justificativas para esta abordagem são várias. Pensa-se em atrair público, quer-se garantir a exposição do evento à grande mídia e mesmo poder usar nomes e números posteriormente  como imagem marcante.

E isto, em especial à Festival de Talentos, FeBICA e Rock na Estação  faz perder em muito sua razão de ser. Acaba-se, invariavelmente, colocando em segundo plano todos os outros grupos que participam. Os talentos, os independentes, os novos. 

O mesmo também acontece com o festival Contato, muito embora eles já muito pouco atentem-se a produção local, inserindo-os a um décimo de suas programações, trabalhando com os novos talentos independentes já despontando na mídia. Mas mesmo estes tem menos tempo a tocar que os demais, sujeitando-se a inserção nestes espaços para galgar alguns degraus, pela publicidade, pela idéia não-exatamente certa de atingir um novo público. O mesmo acontece em dezenas de outros festivais do circuito ABRAFIN - Associação Brasileira de Festivais Independentes.

E falando em festivais Brasil afora, assim como trocentas outras cidades são-carlos também abriga, praticamente desde o princípio do boom, um festival Grito Rock, a época do carnaval. E então, tem-se esta proposta de festivais independentes baseados na produção autoral, com grande circulação de bandas, mas que acaba caindo em um midiatismo invariavelmente, cercando-se de algumas propostas apenas, chegando mesmo a sufocar algumas das cenas locais onde passam.

Agora, entramos numa das coisas mais interessantes vistas neste meio, embora controversa, tenha sido o Rock na Estação deste ano fazer uma seleção extremamente bairrista, privilegiando o trabalho de bandas de São Carlos e sobretudo o material autoral. Isto vai exatamente contra a corrente proposta a maioria dos festivais pelo país. Talvez perca-se certa qualidade, mas ganha-se infinito numa política de incentivo, papel maior das iniciativas públicas hoje. Na UFSCar, o Festival de Talentos acaba por fomentar esta também iniciativa juntos dos seus, embora não foque na produção independente, já que sempre foi mais fácil  reproduzir o visto no grande mercado, o que aponta para a grande aceitação popular, acerto para as massas, mas erro por vários outros lados.

E então, um dos grandes problemas do Festival de Talentos descerrava-se justamente pelo enfoque pesado à seu headliner, em particular no apelo técnico. Os grupos, talentos então, apresentando-se como em todo festival com um tempo restrito, foram em muito desmerecidos. Aqui, desta vez enquanto intruso ao meio diretamente atuante, participando da intervenção do coletivo Aos Maníacos Símeis, sentia-se na pele a falta do trabalho da sonorização, que não provinha retorno em adequação alguma às diversas bandas da noite, caso particular que se extrema quando a proposta é de improviso livre. Não cabe aqui generalizar, mas é temerário que não tenham sido poucas as reclamações (caladas) de outros grupos, mesmo desconsiderando-se o fato de que passagem ou mesmo checagem de som alguma era feita. E, assistindo mais atentamente à apresentação de Fernando e seus Duendes, grupo de professores e graduandos do Campus da UFSCar em Sorocaba, fazendo um rock rural com diversas composições autorais, a equalização só não matava o grupo porque era bacana, a se ouvir com acuidade, divertida a apresentação. Ali, sequer se ouvia baixo, faltavam microfones às várias percussões do grupo, mal se ouvia o único violão e pouco aparecia um sax e o contrabaixo elétrico fez-se presente apenas ao solo do último minuto do grupo.

E mesmo um headliner como o Quinteto Violado não consegue atrair público, preso a menos de quatrocentas pessoas. Um investimento sem tamanho, que diluído a todos os que participaram ativamente poderia ser muito mais recompensador a todos. E aqui, quebrariamos a estigma e criariamos a cultura de observar o novo, o curioso, de perto e atentamente, a ponto de olharmos o espelho mais e ao mesmo tempo menos vezes.

Cobertura: Festival de Calouros da UFSCar - BNegão e Os Seletores da Frequência



Organizado pela Rádio UFSCar em parceria com a Pró-Reitoria de Graduação da universidade, o Festival de Calouros da UFSCar começava às 16h de quinta-feira, 4 de Junho, na Praça do Mercado em São Carlos, com atrações musicais, teatrais, vídeos, danças e pinturas, que traziam mandatoriamente ao menos um artista do primeiro ano da UFSCar envolvido no trabalho. E, ao final, BNegão e Os Seletores da Freqüência como atração principal este ano.

Quando no ano passado trouxemos AQUI algumas notas tiradas da 2ª edição do Festival, cobrindo a primeira apresentação do Móveis Coloniais de Acaju pela cidade, já imaginávamos que a ocasião iria fazer história no calendário musical da cidade.

Contudo, há uma diferença fundamental entre o de Calouros e os demais festivais da cidade. Um festival como o Rock na Estação, tem todas as suas bandas como atrações principais. No Escuta Essa ou no FeBICA, elas ainda por cima competem entre si. Mesmo no Contato, onde até há uma atração um degrau maior ao final dos shows, todos são expoentes falando nacionalmente.

Já no Festival de Calouros, ao escalar um grande nome sempre, primeiro Teatro Mágico (se é que se pode chamar de grande), depois Móveis e agora BNegão, cria-se uma disparidade monstruosa entre este e o material apresentado pelos então calouros, bixos. Isto, mais do que nunca, é refletido na ridícula presença de público durante as primeiras atrações da noite, justamente quem dá nome ao festival, os primeiranistas. Parece mesmo que extra-oficialmente o horário para começar a festa e às 20h30, com as pessoas fazendo contas, afinal se obrigatoriamente as atividades na Praça do Mercado devem se encerrar às 22h e o BNegão deve tocar no máximo uma hora e meia, este é o horário pra chegar. Chega a ser vergonhoso. Mais uma vez, falando do nome da noite, festival, DE CALOUROS, o público deveria também prestigiá-los. Claro que este ano não tínhamos nem um já finado Javali Underground pra nos surpreender, mas ainda assim prestigiar a todos é o mínimo que se espera de uma audiência. Não havia ali, até perto das 20h, cem pessoas, sendo metade, da organização, enquanto que no auge do BNegão provavelmente 500 pessoas lotavam a frente do palco. E a desculpa de que era uma noite fria só surtia efeito até pouco antes do BNegão, afinal.

Feitos estes comentários, vamos ao festival em si. Nossa equiparagem, também vergonhosamente, não chegou às 16h, mas apenas às 18h. Soubemos de segunda mão que já havia rolado a esta altura duas bandas, Ninguém vai tocar e Ben Affleck, ambas incursionado por covers. A esta altura se iniciava uma encenação teatral, instigadora, de um grupo nomeado Corpo de Rua, ali mesmo, no chão da Praça.

Já para a primeira apresentação que víamos subindo ao palco, um chorinho do grupo Vagalume. Com dois violões, pandeiro e clarinete, executaram nos seus vinte minutos cedidos uma boa seleção de Pixinguinha, com direito mesmo a um Abel Ferreira, com Chorando Baixinho. E reza a lenda que faltava ali um quinto integrante, uma flautista, que batizou a banda. Pela qualidade dos garotos, provavelmente iremos trombar com eles por aí.

E na seqüência, uma pequena surpresa: O único vídeo-clipe de uma banda queridíssima nossa, DonaZica, com a faixa Nua e Crua sendo transmitido no telão do palco principal. Dirigido, nada mais propositado, já que é justamente uma faixa com participação de BNegão na faixa, do álbum de 2005 da banda, Filme Brasileiro. Claro, aqui a desculpa era um calouro do curso de Pedagogia, supostamente Ricardo Vieira, responsável pela edição do clipe, que pode ser visto abaixo. Válido, válido e necessário.



E noutra incursão no chão da praça, enquanto preparava-se o equipamento da próxima banda no palco, era a vez da apresentação circense de um pessoal que está sempre se reunindo pela chamada Praça da XV fazendo malabares e outras estripulias, aparecendo em um e outro evento. Ali chamados Los Boludos, tiveram seus minutos, com direito até mesmo a monociclo.

E praticamente como que abrindo para o BNegão, já que traziam uma produção mais caprichada, tocando ali seus quarenta minutos, bem mais que as demais da noite, vinha a banda Krakatoa Reggae, de Araraquara. Acompanhavam o calouro e baterista Hugo Gorla, os gêmeos Vitor Gorla e Davi Gorla, na guitarra e contra-baixo, Rick nos vocais e Ras Tabeça na percussão. Com alguns anos tocando pela região e lançando um álbum até o fim de junho, fazem uma proposta praticamente vale-tudo, daquelas bandas típicas de balada. No setlist da noite apresentaram algumas faixas próprias, como a homônima Krakatoa Reggae, alguns arranjos por muito reggeados de Jorge Ben Jor, como Mas Que Nada e Umbabarauma, até mesmo um Chico Science, com Manguetown e, como não poderia deixar de ser, Bob Marley, com Exodus e Get Up Stand Up.

E, já tradicionalmente antes de subir ao palco o grande nome da noite, surgia à bateria da UFSCar para tocar, ou tentar, algumas coisa ali. Esperemos que aqueles ali sejam apenas o calouros, porque foi sofrível, de fato. Felizmente, curto! Agora, se houve outra reclamação na noite, foi o volume excessivo do som ali na praça, que pareceu incomodar muitos da platéia. Isto atrapalhou em muito as bandas de calouros, que obviamente não passaram som algum, simplesmente entravam tocando. Felizmente para o BNegão houve um acerto do PA, claro.

Como previsto, às 20h35 subia ao palco um sujeito corpulento, imponente, BNegão, acompanhado de seus Seletores de Freqüência, que colocaria força no palco e contaminaria a galera. Mesmo em vinhas de lançar um novo álbum, ainda apresentavam muito de seu já velho trabalho-debute, Enxugando o Gelo, lançado em 2003, que em certos aspectos é um marco dentro da música independente brasileira, quando naquela época já disponibilizava o álbum para download na íntegra.

Famoso junto ao Planet Hemp, se é um homem do Rap, BNegão compreende muito bem a música brasileira e do mundo, aplicando em seu trabalho sonoridades diversas, realmente: do Funk Carioca ao Blues do Mississipi; do Reggae ao Samba; do Dub ao Rock; do Jazz ao Hip-Hop, da Bossa ao Hardcore. Isto claro é fruto de uma produção e estudo que busca criar álbum que apesar de ter uma linha-guia, tem muitos ramos, com guitarras beirando até o manguebeat de Maquinado e trompetes e samples lembrando Guizado, servindo ao público já estabelecido que o ouvia no Planet Hemp e devidamente conquistando novo público, chegando a novas rádios, a alta mídia. É quase engraçado como o independente se torna mainstream e há popularização, senão comercialização dos ímpetos mais transgressores da sociedade, ouvidos por todas as classes, banalizado.

E justamente como seu álbum, era o público que o assistia. Embora centrado nos universitários, uma platéia heterogênea, que de fato conhecia seu trabalho, estava lá. Também pudera, cinco anos do álbum lançado e uns bons três anos excursionando com os Seletores. E os Seletores são cariocas, Pedro Seletor no trompete, voz e guitarra, Fabiano Moreno na guitarra, cavaquinho e Voz, Robson Vinttage na Bateria, e Kalunga no Baixo. BNegão, além da voz e linha de frente, vem a guitarra em um faixa ou outra também. O show de fato é forte, muito bem levado, criando vínculos fortes com a platéia, intimando ela a se mexer, espantando o frio que caia sobre São Carlos naquela semana.

Rolaram no setlist praticamente todas as faixas de álbum de 2003, com pontos altos em Prioridades, no seu refrão na boca de todos, "Priorize as Prioridades", e V.V, rap-samba onde Moreno ataca no cavaquinho e Pedro na guitarra. BNegão também mostrava algumas cartas para o próximo, que sai neste segundo semestre, como Juju, Reação e Proceder/Caminhar. Ainda traziam arranjos para Jorge Ben Jor, finalmente bem contemplado na noite depois do que o pessoal do Krakatoa havia feito, justamente no meio da faixa nova Juju, com trechos de África Brasil (Zumbi), do álbum África Brasil, de 1976. De Jorge, aparentemente muito admirado por BNegão, também tinham programado Hermes Trimegisto Escreveu, do mesmo álbum. Desta saiu um vídeo em Sorocaba, que segue abaixo! Outro arranjo que embalou o povo ali na Praça do Mercado era o Reggae, finalmente bem conduzido, com I Chase the Devil, do jamaicano Max Romeo.

01. A Palavra; 02. (Funk) Até o Caroço; 03. Nova Visão; 04. Prioridades; 05. Reação; 06. Proceder/Caminhar; 07. V.V; 08. Dorobo; 09. Seletores de Freqüência; 10. I Chase Tha Devil; 11. Hermes Trismegisto; 12. Juju; 13. O Processo; 14. Qual é o seu nome?; 15. A Verdadeira Dança do Patinho;

BIS 1
Enxugando o Gelo; Pass The Peas; Beatbox+Trumpets; (Funk) Até o Caroço (versão tocada em Brasília);

BIS 2
Beatbox+trumpets; Imunização Racional;

Vale comentar que ao chegar em Dança do Patinho, iam indo às 22h, "e em teoria o show se encerrava por aqui...". Mas atendendo a pedidos, no bis estes foram contemplados com a faixa homônima ao álbum, Enxugando o Gelo, mais Pass The Peas, de Maceo Parker, incursionando pelo Soul e Jazz do americano. Brincariam ainda com um beatbox de BNegão mais o trompete de Pedro Seletor, seguido por uma uma outra versão de (Funk) Até o Caroço, até então só tocada em Brasília. Eles voltariam instantes depois para um segundo bis, novamente com o lance do beatbox e trompete, pra emendar um Tim Maia, com Imunização Racional, do álbum Tim Maia Racional Volume 2.

BNegão é um monge-shaolin-negro, que saúda marcialmente a platéia como quem venera seus companheiros numa luta contra inimigos quase invisíveis. Sua crítica política é descarada em faixas como A Verdadeira Dança do Patinho, que como muito bem dito pela figura "É o reflexo terceiro-mundista do brasileiro, que nasce bebendo e dançando (...) E no momento em que o índio aceitou o primeiro espelhinho português o som que se ouviu no horizonte foi quén-quén-quén", como um patinho, de fato.



Um dos aspectos interessantes desta edição do Festival foi uma iniciativa dos calouros do curso de Imagem e Som, trabalhando na noite, por trás das atrações, fazendo uma cobertura dos eventos. Estavam lá todos trajando preto com uma camiseta com os dizeres PISCAR, sigla nos remete a Produção Independente de São Carlos, senão uma Pixar, não é? Contudo, vamos ver ainda se sai algum material em áudio, vídeo, fotos e afins dali. Já dissemos uma vez por aqui, nem o Contato finaliza tanto quando captura, o que é uma lástima.

E outro lance bacanudo da edição deste ano foi a realização do Festival não apenas em São Carlos, mas também em Sorocaba. Com um estranho Campus da Universidade Federal de SÃO CARLOS nesta cidade vizinha, também aconteceram por lá apresentações dos calouros, finalizando com o BNegão. De lá temos apenas o vídeo do BNegão, por hora. Alguém esteve por lá pra nos contar como foi?

Só nos resta a dúvida sobre o que aconteceu com a edição que se passaria em Araras, outro Campus da UFSCar. Será real o boato de que ela não foi levada a cabo pela escolha da curadoria do evento recair em um membro do Planet Hemp? Que pensamento...

Ademais, mais um ensaio de fotos da noite, AQUI, no nosso Picasa!


Fotos: Vincent de Almeida

Anotações do Show: Móveis Coloniais de Acaju, no Festival de Calouros da UFSCar 2008

Em mais uma louvável iniciativa da Rádio UFSCar, promovendo a segunda edição do seu Festival de Calouros no dia 15 de Maio de 2008, São Carlos é agraciada com o grupo do mundo independente de Brasília, que está quase por cair no mainstream, Móveis Coloniais de Acaju.

Como o Programa Bluga esteve lá para puramente curtir a noite na Praça do Mercado, trazemos mais uma vez a sessão Anotações do Show, comentando brevemente as “vagas opiniões” e o setlist.

Em se tratando do Festival, algumas bandas interessantes estavam lá mostrando seu trabalho. Outras, nem de longe trabalham. A primeira que se pode apreciar dado o horário das apresentações foi o grupo Cubanistas, para o qual só os mais desavisados precisam de explicações: Salsa, Merengue e Mambo. A formação na ocasião trazia um excelente trompetista e delicioso vocal feminino, acompanhados de baixo, guitarra, bateria, trajados a rigor. Muito embora exista espaço para clássicos do ritmo cubano na cidade, considerando-se o grande número de latinos na cidade, talvez não fosse o público ideal para o quinteto. Mas perto do que viria, os trinta minutos cedidos a eles foram bravíssimos!

Na seqüência, calouros do curso de Biologia formaram (às pressas?) o Mitoses Assassinas. Como proposta, apresentar o Mamonas Assassinas. Mas a máximo de homenagem que fizeram foi à Roberto Carlos com uma flor presa a orelha, já que o som era execrável. Felizmente não duraram mais que dez minutos.

E perto da sofreguidão dos Mitoses, frustrados tocando uma banda frustrante, a banda T.I.M.E, com repertório embasado em U2, Cold Play e Maroon 5. Apesar dos pesares, seus vinte minutos foram escassos, deixando uma tietagem pedindo bis. Apesar do nome pomposo de Transcendental Innovative Musical Experiment, este pessoal da Engenharia Civil trazia apenas um Pop/Rock internacional, tocando as mais tocadíssimas das rádios.

Pra quem sabe salvar o nome dos Calouros da UFSCar, surgiu o Javali Underground, com uma inspirada apresentação instrumental, incursionando pelo Fusion. Guitarra, teclados, baixo e bateria que precisam ser visto de novo e com mais delonga.

Pra fechar a participação da UFSCar, nada mais clássico do que trazer a bateria da Atlética. Nada a declarar, porque a rivalidade não permite a imparcialidade... Como se algum infame conseguisse escrever sem ser parcial!

E para o ponto alto da noite, vinham os Móveis num microônibus endereçando Brasília, chegados de pequena turnê pelo estado, ainda a tempo de ter visto a bateria tocar seu hino inclusive.

Com seus muitos músicos ao palco, ainda assim notava-se a falta de uma das figuras, Leonardo Bursztyn autor de várias das músicas. Mas estavam lá todos os demais integrantes da trupe: André Gonzales nos vocais, BC na guitarra, Beto Mejía na flauta transversal, Eduardo Borém-perna-quebrada-e-tudo, na gaita e teclados, Paulo Rogério no sax, Esdras Nogueira no sax barítono, Xande Bursztyn no Trombone, Fabio Pedroza no baixo e Renato Rojas na bateria.

Às oito e meia da noite, entram com uma brilhante Menina-moça colada com Swing Hum e Meio, pra lembrar Swing I e II do primeiro EP. Conhecidas a parte, trazem a nova Lista de casamento, ainda por ser gravada em estúdio, com uma passagem de refrão geniosa e carregada de ironia.

Na seqüência, uma releitura do clássico do Ultraje a Rigor, Eu me amo. Esquilo não sambaCheia de manha, que não se soou muito bacanuda de primeira ouvida, como mais do mesmo. maravilhosa como ela só, e mais uma nova,

Perca peso e Seria o Rolex?, arrebatadoras. O público cresceu ao longo das apresentações do Festival, se concentrando para o Móveis Coloniais, e ali estavam suas quatrocentas pessoas, com massiva maioria não só embalando-se, mas cantando letras e mais letras.

Viria ainda outra nova, já disponibilizada como single pelo Trama Virtual, Sem palavras. Sadô-masô logo depois, com um excerto de Hit The Road Jack, como imortalizada por Ray Charles, fazendo todos cantar AQUELE embromation.

Aluga-se-vende, pra trazer mais uma importada, Glory Box, em EXCELENTE versão desta do Portishead, pra tentar fechar com Copacabana. Irresistível, o público obedece ao roteiro e faz a manha, voltando então os sujeitos relembrando o cancioneiro popular com Se essa rua fosse minha. E pra atender os sempre presente pedidos de “Toca Raul”, uma nobre versão de Como vovó já dizia, pra fechar de verdade com Do mesmo ar.

IMPRESSIONANTES ao vivo. André brisando, brisando no palco, sem parar um único segundo. Suas evoluções e revoluções compensam todo o vocal que não é lá essas coisas fora das gravações de estúdio. Impagável, empolgante, contagiante.

Geniais, com inúmeras brincadeiras daquele sem número de músicos no palco, essa big band parecia por vezes brincar de estátua, com todos correndo para lá e para cá, pra parar nas poses mais inusitadas, dignas de fotos. E claro que houve, além de um mosh incitado pela platéia do fronte, mas também uma bacanuda incursão dos membros da banda junto ao público para tocar no meio destes e levar TODOS a bailar. Divertidíssimo!

Ficou faltando apenas o pedido do público empossado no “GREGÓÓÓÓRIO” e quem sabe, de quebra, Cego. Em conversa com Renato Rojas, descobrimos que essa é requisitadíssima pelos cariocas. Por que será?

Subtraímos mais algumas coisinhas do pessoal da banda. Posto o número de faixas novas que eles vêm tocando ao longo de suas apresentações, como se pode conferir neste show, tinha-se de perguntar como anda o processo de gravação. Segundo Mejía, eles devem estar entrando em estúdio apenas no meio do ano, finalizando o novo álbum por dezembro, pra lançá-lo ao grande público possivelmente em março de 2009, o que é muito bem-vindo!

Ainda, mais uma do Rojas, para o Móveis Convida deste ano. O baterista nos confissionou que a banda procura trazer um grupo do cenário sul-americano, com quem sabe uma banda da Argentina ou Venezuela para o evento em Brasília.

Estendendo a conversa, ainda ficou no ar uma ação grande da banda, incursionando “por aí”. Conversou-se também sobre o próprio fato da banda estar comendo as bordas do mainstream, enquanto ainda está atrelada a um selo independente e continuará atuando assim enquanto isto se mostrar vantajoso, muito embora eles estejam procurando vincular parcerias com a mídia.

Pelo show excepcional, ficou a vontade de vê-los de novo, e pela conversa do pós, ELES também parecem querer voltar, com toda a certeza. Esperemos que seja logo!



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