Ensaio: Palquinho na Semana do Bixo do CAASO

Esta seria mais uma simples cobertura de bandas, não fossem as intrigas envolvendo o caso e os fatos que transcorreriam. Logo, enquanto espaço público vamos levar algumas questões à atenção de todos. Não que precisássemos nos justificar nesse sentido, afinal, somos completamente independentes. Mas não se preocupe, o espetáculo aconteceu e foi grande... uma batalha de proporções épicas!

Depois de algumas tentativas frustradas de fazer algo diferente dentro do espaço da USP de São Carlos na Semana do Bixo, finalmente uma diretoria do CAASO propôs inovação, para a tarde de terça-feira desta XI Semana de Recepção de Calouros, Semana "Ângelo Morato Strini", um Festival de Bandas e outras atividades culturais.

Nos anos anteriores o que se via neste mesmo espaço às terças-feiras era o fenômeno conhecido como "Apelidação", seguido do "Miss Bixete". A Apelidação consiste da turba de bixos tintados e/ou enlameados levados por seus veteranos para uma concentração com todos os cursos, logo após receberem seus apelidos, que os seguirão pelo resto da vida universitária e quem sabe profissional. Reunida a bixarada, rolam brincadeiras sacanas com eles, no que seria uma competição entre os bixos de cada curso, promovida pelos grupos da AtlétiCAASO (obviamente a atlética do CAASO), GAP (Grupo de Apoio a Putaria) e agregados. Já o Miss Bixete, na seqüência, nada mais é do que eleger a bixete mais... portentosa. Nunca sem antes apresentar uma profissional ali a fazer um top-less, o então chamado "Peitão", e algo mais.

A questão do CAASO em ir contra a Apelidação é encará-la como um evento de caráter opressor, exaltando a diferenciação entre bixos e veteranos, não promovendo a integração desejada entre estas classes. Isso seria justificado ainda pela ausência de alguns dos cursos do Campus, contrariados com a proposta. Logo, encaremos inicialmente esta postura do CAASO como tentativa de promover maior integração ao atender a todos, sem distinção. Afora o machismo do Miss Bixete.

A bem da verdade, o CAASO não tem como proibir a realização da Apelidação ou Miss Bixete. O que a gestão atual – a Abrearoda – fez, foi posicionar-se contra e não ceder o espaço do Centro Acadêmico para tanto.

Outro aspecto dessa história envolve o Grupo de Som do CAASO, que promoveu diversos eventos naquele espaço, como o SancaStock e o FeBICA. O Grupo de Som a princípio faria o Festival de Bandas em alinhamento com a diretoria do CAASO. Contudo, como seus integrantes tinham em mente que haveria uma Apelidação quer-queira-quer-não, eles afirmavam que caso houvesse uma comoção generalizada eles usariam seu equipamento para tanto. Chegaram mesmo a propor manter os dois eventos em paralelo, um dentro do espaço do CAASO e outro no palquinho externo, controlando o volume do som. A despeito disso, a diretoria do CAASO contratou som terceirizado, do Julinho, sempre presente em outros tantos shows na cidade, garantindo a realização de seu Festival e mantendo-se firme na decisão de não ceder seu espaço.

Assim, ao começo da tarde do dia 15 último estava montado no palquinho externo do CAASO a estrutura que comportaria o Festival de Bandas. Mas ao mesmo tempo, uma concentração descomunal de pessoas aglomerava-se na Praça Central da USP, onde Atlética, GAP e agregados organizavam a Apelidação deste ano, com piscina de lama e tudo o mais. E lá estava também o Grupo de Som, despreterizado pela diretoria do CAASO, mas necessário a grande massa de alunos deste mesmo CAASO.

Enquanto surgiam delegações dos bixos de cada curso pastoreados pelos veteranos, no estacionamento do CAASO surgia o que seria a primeira apresentação do Festival: o grupo Yanagi Taiko. Para quem não conhece, o taiko nada mais é que o a percussão japonesa, com rudimentos característicos da marcha marcial. Usando de tambores de diferentes formas e tamanhos, com as chamadas bachi, as baquetas, subindo aos ares em performance que lembra um balé, foi um som um tanto quanto inusitado para o momento, deixando um clima estranho no ar. Haveria uma mescla deste taiko e de um grupo de Maracatu, como já havia acontecido em apresentações dentro do próprio Teatro Municipal, mas infelizmente o Maracatu não compareceu. O Yanagi Taiko é um grupo da Associação Nipônica de São Carlos, que tem seus ensaios feitos dentro do CAASO, logo nada mais justo do que apresentarem-se ali.

Nesse mesmo momento, se montava o equipamento do grupo de samba Entre Amigos, que faria uma apresentação para uma platéia minguadíssima, já que todo o público se concentrava na Apelidação, naquela situação esquisitíssima. Não acompanhamos de perto a apresentação, mas ao longe parecia um som dos mais razoáveis, em se tratando do sambão.

Agora, um dos aspectos mais estranhos era uma das justificativas da diretoria, em que a Apelidação não contemplava uma série de cursos, seja da Engenharia, como a Ambiental seja dos Institutos, como a Computação. Derrubando essa teoria por terra, estavam lá na Apelidação tanto Ambiental como Computação.

Interessante mesmo seria a apresentação do que viria na seqüência, com o Quizumba. Rolando altos sons de nossa MPB mais recente, transpostos para a língua rock em baixo, guitarra e bateria. Quizumba é a menina Marina "Tika" Casonato na voz, que também canta no excelente conjunto vocálico Dó Bemol (que cairia bem no MACACO próximo), mais Guilherme Ambrózio no baixo, de outras tantas bandas, indo do Tarja Preta a Fanfarra do Maestro Invisível (viva ainda estaria esta?), mais Rodrigo "Digão" Lancelotti, de Rocha Sólida a O Fantástico Mundo de Jimi, cobrindo a ausência de Pablo Mendoza, além de Fábio Salvatti na bateria. Vamos dedicar mais além uma resenha propriamente dita a um show deles, afinal o som merece, então aqui vamos nos ater a alguns dos fatos, apesar de já termos conferido a graça deles no palco.

A essa altura, às 15h40 de sol forte, aglomerou-se ali um número bem maior de pessoas, suas cinqüenta cabeças, já que o Quizumba é conhecido do CAASO de outras festas e o som, com perigo de repertir-me, é cativante. Contudo, mal rolou a passagem de som e três outras faixas para que todo aquele mundo que estava na praça central invadisse o espaço do CAASO, chamados pela GAPeria, bateria amarelo-e-preta caasística. Aqueles bixos troteados do começo agora se sentavam ao pé do palquinho e ouviam a bateria. Esse ato, antes de qualquer coisa é um tremendo desrespeito para com o público que ali assistia e, sobretudo para com os músicos. Caberia ali ao menos esperar que eles terminassem a faixa do Lenine que ia findando, senão esperar que eles fizessem sua apresentação até o fim. Sem ter o que fazer, os músicos esperaram sentados enquanto a bateria entoava hinos do CAASO. Aliás, bateria pavorosa, com os surdos terrivelmente descompassados. A platéia que queria ver o Quizumba se mostrava indignada, sem mesmo cantar o próprio hino do centro acadêmico, como que em protesto ou ainda vergonha dele.

Em um segundo momento esta atitude mostra-se um tanto quanto válida enquanto expressão de força. Contrapor as cerca de mil pessoas que usaram nos últimos anos o espaço do CAASO para a Apelidação contra 50, que fossem 100 pessoas, é mostrar exatamente quem são as pessoas que compõe o CAASO e o que elas querem. Claro que o posicionamento da diretoria foi aquele que compete a todo centro acadêmico, indo contra toda ação minimamente opressora e hierárquica, mas esta decisão não poderia ter sido tomada levianamente. Muito embora eles tenham levado o caso ao chamado CSA, Conselho de Secretarias Acadêmicas, levantemos a questão da real representatividade das secretarias acadêmicas, enquanto voz de todo um curso. Usualmente os integrantes destas secretarias são pessoas mais politizadas, que de modo algum podem opinar ou confirmar participação para com uma transgressão das "tradições" do Campus. Decisão no mínimo precipitada da diretoria.



Idos os quinze minutos de afronta, toda essa turba migrou para dentro do CAASO, deixando continuar o som ali no palquinho externo. Claro, a coisa continuava estranha, com um barulho incômodo vazando lá dentro e grande aglomeração as portas do CAASO, transbordando de gente. Tantas eram as pessoas ali que alguns preferiram acertadamente ficar pra fora e assistir a banda continuar. Sem perder a ginga, Quizumba deitou mais oito músicas em vinte minutos, até onde deu, pois dali então começava o Miss Bixete e era insustentável continuar ali fora.

Este palquinho ainda teria mais uma banda, que começaria a tocar findo o bochicho todo. Este momento foi importante, já que sobraram ali suas duzentas, talvez trezentas pessoas que no final das contas aproveitaram o show. Às 17h30 começava a apresentação dos nossos conhecidos de já bom tempo, Aeromoças e Tenistas Russas. Seis meses depois de nossa primeira resenha deles, apareciam nesse fim-de-tarde algumas novas composições que chamaram a atenção, como Jacques Villeneuve Experience e outra, ainda não nominada e sequer finalizada, mas que já assombra. Mesmo seu material conhecido mudou ligeiramente, com novos arranjos, ora mais pesados, ora mais bem marcados. Prometemos tão logo quanto possível em condições de melhor temperatura e pressão uma resenha caprichada desse pessoal, que se mostra cada vez mais prolífico.

Entramos muito no mérito das partes aqui, mas na verdade gostaríamos apenas de apresentar os fatos na verdade e mostrar o trabalho dos músicos, talvez defendê-los. Quanto ao embate entre Atlética e a Apelidação versus a Diretoria do CAASO e o Palquinho, honremos a atitude da diretoria, já que certamente há espaço para atividades de cunho mais cultural dentro do Campus. Entretanto, ir imediatamente de encontro a uma força selvagem não é nem de longe esperto. Teria sido muito mais nobre, por exemplo, realizar este mesmo palquinho em outro horário. Obviamente muitos dos que estavam na Apelidação, seja por curiosidade, seja por pressão social, iriam comparecer e este spread cultural seria maior. Por outro lado, apesar do dar-as-caras-do-verdadeiro-estudante-do-CAASO, ali havia espaço para todos. Às três da tarde, todos iam feliz, palquinho ali embaixo, Apelidação lá em cima, pela primeira vez sem o sol rachando na cabeça... Mas enfim, aconteceu. Veremos que se sucederá nas próximas eleições para a diretoria do CAASO. (In)Felizmente, o povo tem Alzheimer.



Nota do Editor: Deveriamos é ter comentado a apresentação do Rocha Sólida na quarta. Ou mais cabível ainda, a homenagem a Ângelo "Bozo"Morato Strini com o Blues The Ville. Ângelo faleceu depois de sair sob circunstâncias muito suspeitas da casa noturna ZOE Dining Cub. Diga-se de passagem, ele ouvia muito bom som!

2 comentários:

Benê disse...

Gostei do texto! Sou da GAPeria, a referida “bateria pavorosa” :p, estive presente na Apelidação e Miss Bixete e gostaria de dizer o seguinte sobre a terça-feira onde tudo isso aconteceu: o insucesso do evento organizado pela Diretoria se deve unicamente a ela mesma! Não ao GAP, ou à Atlética, à GAPeria, Grupo de Som ou aos estudantes em geral. Tentarei explicar:

Acho completamente louvável alguém ter a iniciativa de organizar um evento mais cultural no CAASO, de fazer do ingresso dos Bixos um acontecimento mais rico, com mais opções de atividades. Acho tudo muito bacana! Agora, eu não acho bacana alguém querer enterrar uma tradição (e aqui eu não vou escrever tradição entre aspas porque de fato se trata de uma tradição!) impondo uma forma nova de trote dizendo que esta é melhor que a anterior. Se assim fosse, por que então se vê tantos carequinhas sujos de tinta com sorrisões na cara em fotos do Orkut? Por quê que todo ano sempre tem um bixo perdido perguntando onde é o trote da computação, frustrado por ainda não ter sido pego por seus veteranos? Por quê que aqueles que passaram pelo trote num ano repetem-no no ano seguinte?

O trote, como ele é, é muito mais do que a farra e a zoação que uma primeira vista pode passar! O trote é um dos ritos de passagem dos mais importantes de nossas vidas! Passar numa faculdade pública é um grande sucesso! A vida a partir desse feito será outra! Arrisco a dizer que esse rito se equivale em importância a ritos como casamento e batizado!

Na verdade, o que aconteceu na terça-feira do dia 17/02 foi um ato muito bonito em defesa da liberdade e do direito! Liberdade de se usar o espaço do CAASO, que não pertence à Diretoria, mas aos estudantes, para se realizar um evento que tem o apoio massivo dos estudantes de todos os anos e cursos do campus e direito, por parte dos bixos, de participar no seu ano de ingresso do trote e de tudo o que ele representa.

Atividades como o Festival de Bandas, Trote Solidário, Debates, Godzilla do Trem Bão, etc., devem sempre ocorrer, mas nunca em detrimento de uma atividade ou de outra. Devem-se buscar dias e horários convenientes de modo a oferecer mais opções e, nunca, brigas tolas. O Festival de bandas, por exemplo, se tivesse acontecido à noite, teria tido muito mais audiência e causado uma impressão muito melhor aos bixos.

Que fique uma lição a todos: o CAASO é muito mais legal quando unido! Cada grupo serve pra expressar os diferentes pensamentos e gostos da massa de estudantes que temos no CAASO. O Som é de um jeito, a Atlética de outro, enfim, cada um tem uma proposta, uma razão, mas nunca podemos esquecer que somos todos CAASO e que temos de saber conviver em harmonia para sempre mandar um belo “Xupa!” para os federupas!

Saudações!

Benê (Eng. Elétrica/ Eletrônica 2004)

Ricardo disse...

Olá,
Vcs poderiam me passar o contato do Julinho(som)?